Indianistas, indigenistas e o Estado Brasileiro

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Desde pequeninos, na escola, com a cara pintada, normalmente de apache hollywoodiano, aprendemos que o índio é um “outro” (nunca um nós), memória distante que contribuiu para a formação do povo brasileiro, “mas não existe mais”, foi integrado à nacionalidade.

E os tempos vão passando, chegando às séries finais do ensino básico, as aulas de literatura nos mostram os Arcádicos brasileiros tomando o índio como persona de sua lírica.

O épico Uruguai (1769), escrito por Basílio da Gama, retrata a luta pela conquista das Missões e atribui aos Jesuítas a culpa no episódio de aliciamento aos índios; mas não nos dizem que o autor foi um “vira-casaca”, que já condenado ao degredo em Angola por envolvimento com os Jesuítas, traiu-os e, para ficar “numa boa” com os algozes, publica um panegírico em homenagem ao casamento da filha do Marques de Pombal; e ainda merece ser o patrono da cadeira número 4, da Academia Brasileira de Letras.

Frei Santa Rita Durão publica o Caramuru (1781), contribuindo com o mundo Iluminista nos fundamentos da ideologia do “bom selvagem”, puro, dócil, desde que convertido ao Catolicismo.

Passa “despercebida” aos olhos dos historiadores da literatura, e nem cai nas provas do Enem a Muhuraida ou o Triunfo da Fé (1785), primeiro poema épico em língua portuguesa sobre os índios da Amazônia, escrito por Henrique João Wilkens, engenheiro militar a serviço da demarcação das fronteiras do Estado Colonial Português na Amazônia (Estado do Grão-Pará e Maranhão), após o Tratado de Madri.

A Nação Mura não aceitava a colonização portuguesa, não sujeitou-se a ela e, no período colonial, infringiu várias derrotas aos colonizadores que pleiteavam o estatuto da “Guerra Justa” para exterminá-la, desde 1738, quando foi lavrado o “Auto da Devassa”.

Em 1784, por decisão própria, em Tefé, selaram a paz com o colonizador mediante garantias de não escravização. Vale salientar que desde 1755 a escravidão de índios estava proibida por lei e estes considerados súditos de Sua Majestade, para garantir o território nos tratados internacionais, na prática, pouco efetiva.

O poema celebra a bravura desse povo guerreiro e sua conversão ao cristianismo. Coube ao Estado Imperial Brasileiro, como vingança ao apoio dos Mura à Cabanagem, persegui-los em todos os Rios da Amazônia até dar por extinta a Nação Mura, reafirmando as raízes ontológicas da violência do Estado Brasileiro contra os povos originários.

O “índio de alma branca” do Romantismo Brasileiro é uma mistificação para dar uma identidade nacional ao povo brasileiro e demonstrar a que ponto a política, interesses econômicos escusos e intelectuais orgânicos da politicagem podem se unir na tentativa de fabricar uma mentira histórica.

Assim, no Brasil, os predadores de índios, a mando ou soldo da Coroa Portuguesa e Imperial Brasileira, vieram primeiro; os Indianistas, como áulicos, vieram em seguida, para edulcorar a história e enganar as crianças nas escolas brasileiras até hoje. Os Indigenistas chegam com o Marechal Rondon, inspirador do tratamento humanizado aos sobreviventes da perseguição do Estado e da cupidez patrimonialista de civis.

Essa categoria de apoiadores da causa indígena, aliada às lideranças de um movimento indígena que ganhou forças na sociedade brasileira após a Constituição de 1988, vive ao sabor das contingências políticas. Indigenistas, servidores públicos concursados, às vezes são obrigados a renunciar seus deveres quando o Estado não provê os recursos necessários.

Os que militam nas organizações sociais ou associam-se à causa indígena estão sujeitos às ameaças, provocação e até à morte violenta, nas emboscadas para eles preparadas por grupos criminosos, que atuam com a conivência ou com a ausência mascarada do Estado.

O Vale do Javari é a bola da vez, mas é Amazônia total, é o Brasil inteiro ameaçado pelo “Estado Paralelo”, sob o comando do crime organizado, contra os povos originários e aos que os apoiam; e contra todos que ousam se opor aos seus interesses insaciáveis, em todo o país.

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