Valer lança Os Lengua Maskóy, traduzido por Hélio Rocha, na bienal do livro de SP

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Os Lengua Maskóy [Enxet] do chaco paraguio (Valer), testemunho etnográfico do escocês Wilfred Barbrooke Grubb, traduzido do inglês para o português pelo Prof. Dr. em Teoria Teoria e História Literária (Unicamp) Hélio Rodrigues da Rocha, é uma das seis obras da Editora Valer a serem lançadas na 26ª Bienal do Livro de São Paulo, marcada para o período de 2 a 12 de julho, na Expo Norte.

Hélio Rocha vai autografar a sua tradução no dia 9/7 (sábado), a partir das 19h30, no estande da Editora Valer.

A obra é apresentada, criticamente, pelos antropólogos  Celeste Medrano (Universidade de Buenos Aires); Felipe Vander Velder (Universidade Federal de São Carlos); e Rodrigo Villagra Carron (da Unilla).

Carron, por exemplo, afirma que os relatos de Grubb retratam vividamente a cultura, a cosmologia, o xamanismo e muitos outros aspectos do povo Enxet.

A narração do autor, ainda segundo o antropólogo, capta e catalisa um ponto de virada do mundo precedente, livre e autônomo dos Enxet-Lengua.

“Estes [indígenas], desde então, serão gradativamente transformados pela influência da colonização, não sem oferecer resistência à dominação e reconfigurar e ressignificar os processos e as mudanças impostas”, assinala ele.

A respeito da tradução e da perspectiva da recepção da obra no Brasil, sobretudo porque terá a visibilidade da bienal, o tradutor Hélio Rocha concedeu a entrevista a seguir:

Quem são os Lengua?

Os chamados Lengua, em séculos passados, atualmente se autodenominam Enxet. Eram pouco conhecidos na época da colonização espanhola no Paraguai, posto que viviam no interior e ainda desconhecido Chaco ou região chaquenha.

Quem foi W.B. Grubb?

Convido o leitor a ler o perfil dele no fim desta entrevista.

Quais as motivações para traduzir este livro?

Desenvolvo o projeto de pesquisa Tradufagia: processo tradutório de narrativas de viajantes de língua inglesa pela América do Sul, na Universidade Federal de Rondônia. Assim, o foco de estudos e investigação são, principalmente, mas não apenas, relatos de viajantes de língua inglesa com o objetivo de tornar essas narrativas conhecidas por leitores brasileiros que não tenham proficiência leitora nessa língua. E, como existe muito material escrito em língua inglesa que ainda não foi traduzido, tenho me dedicado a esse trabalho, pois precisamos saber o que dizem esses autores estrangeiros sobre nosso continente, nossa região, cultura etc. Convém nos interrogarmos quais interesses são esses e porque constroem representações da Amazônia, ou, como é o caso aqui, o Chaco.

Qual a importância de colocá-lo no mercado de língua portuguesa por intermédio da bienal?

É uma grande oportunidade ter uma obra lançada durante a Bienal do Livro em São Paulo, pois a obra pode ser divulgada para todo o Brasil e, a meu ver, a Valer tem grande chance de apresentar obras voltadas para o público que estuda as Amazônias, os Chacos etc. Veja que muito brasileiros sequer sabem que 5% das terras chaquenhas ficam no Brasil, isto é, as terras ditas do Pantanal são o “nosso” Chaco.

Quais são os potenciais leitores dessa obra?

Antropólogos, etnólogos, etnógrafos, historiadores, geógrafos, culturalistas, analistas de discurso e todos que se interessam por questões indígenas, sejam elas culturais ou políticas, econômicas, terras, lutas pela sobrevivência, pelo imperialismo religioso, econômico, cultural etc.

Como o senhor define o seu papel de tradutor de obras de antigos viajantes e crônicas ainda não conhecidos no Brasil?

O meu trabalho é ler essas narrativas; estudá-las, conhecer o autor, investigar os seus discursos que, em sua maioria, são colonialistas. Desenvolver um processo tradutório desses textos estrangeiros tem sido a minha luta, juntamente com outros estudiosos e tradutores. Penso que traduzir também é um ato de resistência.

Fale um pouco da sua relação de tradutor com a Editora Valer?

A Editora Valer tem me apoiado nessa empreitada tradutória, pois se interessou para publicar a obra. Sem essa ajuda, levaríamos muito mais tempo para ter esse trabalho disponibilizado para o público brasileiro. A Valer é uma grande divulgadora de trabalhos voltados para a região Norte. Além de ser uma editora reconhecida, todo o grupo Valer são leitores, pesquisadores em áreas diversas da cultura brasileira. É uma honra ter um trabalho publicado pela Valer.

Tradutor

Hélio Rodrigues da Rocha, professor-adjunto do Departamento de Línguas Estrangeiras (Dale) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) – Campus de Porto Velho, com doutorado em Teoria e História Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pós-doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj).

Coordenou, entre 2014 e 2018, o Programa de Pós-graduação Mestrado Acadêmico em Estudos Literários (PPGMEL). Hoje atua como vice-coordenador do Grupo de Estudos Devir-Amazônia, onde desenvolve o projeto de pesquisa Tradufagia: processo tradutório de narrativas de viajantes de língua inglesa à América do Sul.

É membro do Grupo de Pesquisa Literatura, Educação e Cultura: caminhos da alteridade (lecca); do Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares Afros e Amazônicos ( GEPIAA) e da Revista Igarapé, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

Está credenciado no Programa de Pós-graduação Mestrado e Doutorado em Linguagem e Identidade (PPGLI), Universidade Federal do Acre (UFAC).

É o autor do romance Maciary, ou para além do encontro das águas (Baraúnas, 2012), do livro de contos Gaivotas (Penalux, 2015) e Coronel Labre (Scienza, 2016).

Obras traduzidas da língua inglesa para o português brasileiro: O mar e a selva: relato de um inglês na Amazônia (Paco Editorial, 2014); O paraíso do diabo: relato de viagem e testemunho das atrocidades do colonialismo na Amazônia (Scienza, 2016); As aventuras de um sueco nos confins do Alto Amazonas, incluindo uma temporada entre índios canibais (Scienza, 2017); A descoberta do grande, belo e rico império da Guiana (Scienza, 2017); O noroeste amazônico: notas de alguns meses que passei entre tribos canibais (NEPAN, 2019); Viagens pelos rios Amazonas e Madeira: Brasil, Bolívia e Peru [1872-1874] (Valer, 2020)

W.B. Grubb, um escocês estudioso das populações do chaco amazônico

Wilfred Barbrooke Grubb nasceu em Liberton em agosto de 1865, perto de Edimburgo, capital da Escócia, e faleceu em maio de 1930 em sua terra.

Aos 19 anos de idade se candidatou para trabalhar para a South American Missionary Society (Sociedade Missionária Sul-Americana (SAMS) e foi licenciado como Leitor Leigo na Igreja da Inglaterra.

Em março de 1886, a Sociedade o enviou para a missão nas Ilhas Malvinas para servir como catequista leigo. Dali foi enviado ao Paraguai para acompanhar o trabalho iniciado por Adolph Henricksen entre os povos indígenas.

Na década de 1890, Grubb construiu várias estações missionárias na região do Chaco, estendendo-se do Rio Paraguai para o oeste em direção à fronteira então disputada com a Bolívia.

Desde os primeiros anos no Paraguai, manteve conexões cordiais com o governo, que, já em 1892, chamava-o de “pacificador dos índios”. Grubb tirou diversas licenças para promover o trabalho da SAMS na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Canadá e Estados Unidos.

Em uma dessas viagens, no ano de 1900, proferiu palestras na Conferência Missionária Ecumênica em Nova York. Além de outros textos para conferências, Grubb escreveu três relato, publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos.

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