Protagonismo de indígenas nas buscas por Dom e Bruno é ‘esquecido’ de forma proposital

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MANAUS – |O pouco destaque dado à participação dos indígenas nas buscas pelo brasileiro Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, desde as primeiras horas do desaparecimento, no dia 05 de junho, na região do Vale do Javari, no Amazonas, é a prática de uma “invisibilidade” que faz parte da vontade do governo, na visão do jornalista e sociólogo Wilson Nogueira.

À medida em que se dá voz a esses povos, se contribui para o empoderamento deles, o que não faz parte da vontade das autoridades, segundo o sociólogo. “Isso tudo tem um propósito, que é não dar forças a esses povos, não dar voz, não dar créditos para quem fez um trabalho fundamental e que conhece toda a realidade de lá”, destacou.

De acordo com Nogueira, essa “invisibilidade” ganhou mais força devido à cobertura jornalística realizada nacionalmente sobre o caso, que merece uma análise mais aprofundada, uma vez que, em sua maioria, se baseou em declarações apenas dessas autoridades. “Os créditos foram dados aos policiais, aos cães farejadores e acho isso correto. Os indígenas deveriam ser mais lembrados, eles fizeram um trabalho que só eles sabem fazer”, reforçou.

Wilson Nogueira, jornalista e sociólogo.

Após esses acontecimentos, o que deve ficar de aprendizado é um olhar mais profundo sobre a região do Vale do Javari e sobre os povos que lá habitam. “É preciso se criar um fórum para discutir tudo isso que aconteceu e de que forma foi abordado, e que essa área esteja diariamente nas pautas. Pressionar ações mais efetivas em defesa daqueles povos”, declarou.

Participação indígena – Cerca de 100 indígenas de pelo menos cinco etnias se revezaram em grupos para auxiliar a polícia nas atividades de busca. Apesar dessa participação fundamental, o apoio dos indígenas só foi mencionado, na última coletiva realizada pela Polícia Federal do Amazonas, com a participação dos órgãos de segurança pública envolvidos, no dia 15, depois do questionamento de uma jornalista estrangeira.

O assessor jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Eliésio Marubo, explicou que foi montado um acampamento próximo ao local do desaparecimento, de onde as equipes se revezavam. “Quase todas as comunidades participaram. Foi prestado apoio logístico, inclusive com equipamentos. O conhecimento do território também ajudou muito nas atividades. Fizemos tudo o que estava a nosso alcance, infelizmente não se falou muito nisso”, disse.

Quase todas as comunidades indígenas participaram das buscas afirma o assessor da Unijava, Elieser Marubo. Foto: Reprodução

Foi uma equipe dessas que, no dia 11 de junho, encontrou pertences de Bruno e Dom e comunicou a polícia, que, até então, não havia divulgado nenhum resultado das atividades. “Nos dedicamos muito todos os dias, em cada área que eles poderiam ter passado. O acampamento só foi desmobilizado quando encontraram os corpos, numa área que nossas buscas chegariam em alguns dias”, declarou.
Trabalho documentado.

O jornalista Guillermo Galdos, correspondente da América Latina da Chanel 4 News, esteve na região das buscas, acompanhou e documentou o trabalho desenvolvidos pelos indígenas. Em um dos vídeos produzidos, o jornalista mostra o momento em que o grupo encontrou os pertences de Bruno e Dom em uma área alagada. Até então, as buscas dos voluntários já duravam oito dias.

Galdos apresenta, ainda, relatos de representantes indígenas sobre a parceria e respeito que tinham com o indigenista brasileiro, e destacam o clima de medo nas comunidades, após o desaparecimento.


Fonte: Canal Três

Texto: Tayana Martins

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