O desencantamento da política

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“Com o tempo, o cinismo da política como manipulação deriva em sistema de recompensas que se alinha com o mundo do ganho empresarial na medida em que se concebe a política como uma empresa. Por fim, não há corruptos sem corruptores, e em todo mundo as práticas das grandes empresas inclui comprar favores ao regulador ou ao contratador de obra pública. E como muitos o fazem, é preciso entrar no jogo para poder competir. Assim, a separação entre o econômico e o político se esfuma e as proclamadas grandezas da política costumam servir para disfarçar suas misérias” (Manuel Castells, Ruptura: a crise da democracia liberal, 2018, p.25).

A década passada foi marcada por movimentos reivindicando transparência, apuração da corrupção na máquina pública e reformas políticas que nos levassem a uma maior igualdade social. Esse foi o primeiro teste para a Internet colocar-se como a mais importante mídia a serviço do que se passou a chamar de “democracia direta”. O sucesso desses movimentos derrubando governos, encorajou o avanço de muitos outros movimentos de minorias secularmente exploradas ou mesmo maiorias estigmatizadas, como o “movimento feminista”, com mais de um século de lutas.

Assim, a Internet foi vista, também, como um meio de comunicação promotor da competição com a mídia tradicional, cooptada pelo capitalismo financeiro. Posição ingênua, endossada pela esquerda, mesmo sabendo que no capitalismo tudo vira mercadoria. Desde o nascimento tinha donos: as mesmas forças que substituíram os “imperialismos ideológicos”.

Os primeiros momentos foram de euforia, abertos a todas as experiências e disponíveis a todos os tipos de conteúdo que podiam circular livremente, mesmo sabendo-se que bem cedo a internet já havia sido apropriada pelos meios militares e de inteligência dos estados, antes de ser liberada para uso social e comercial; a deep web, uma Internet subterrânea, onde circulam todos os tipos de informações escabrosas; e a surface web (Internet superficial, indexada).

É como se o mundo inteiro estivesse deitado num grande divã, enquanto os grandes manipuladores do capital e do submundo se apropriavam de todos os sentimentos, valores, preferências, motivações e práticas dos sujeitos/usuários e grupos sociais, armazenando-os como dados e colocando-os a disposição dos algoritmos. Não só provedores e servidores de internet controlam a distribuição tecnológica das redes, os Big Data, os provedores de conteúdo, cujo poder se expressa, hoje, no valor de suas empresas no mercado de ações, colocaram a cara de fora, travando luta direta entre si e até contra o Estado Democrático de Direito, tendo usuários como mercadorias e alvos potenciais.

A deriva dessa nossa década é marcada pelo resultado da desconstrução promovida desde o final do século passado. Jacques Derrida, mentor do movimento desconstrucionista, nos anos 70, não coloca a desconstrução como um ato de vontade de qualquer movimento revolucionário ou reformista, visto que os elementos da desconstrução já constam da coisa em si, o que nos lembra Marx e Engels, no Manifesto Comunista: “tudo que era sólido se desmancha no ar”. Fato é que, amparados na força da internet, os movimentos anticorrupção de todo mundo lograram sucesso momentâneo; as “primaveras” derrubaram regimes autoritários; os movimentos identitários encontraram uma mídia capaz de sustentar um “lugar de fala” poderoso. E tudo pareceu muito bom.

O que teve início no desmascaramento dos políticos associados aos corruptores  para roubar, liquidou, também, a boa e a má política, colocadas no mesmo saco, enfraquecendo as instituições democráticas; os movimentos identitários, empoderados ao máximo, começam, hoje, a ser vistos como fragmentadores da sociedade contemporânea, que não encontra mais os instrumentos institucionais e ideológicos para lutar com o seu contrário: a direita reacionária estamental, animada e instruída pelas mesmas forças de mercado que impulsionaram os movimentos bem-sucedidos, assombra a todos nós, ganha terreno e faz o mundo girar para trás.

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