A cunhã inaiá e a cheia do rio Solimões: o novo livro de Rosely Barros

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No texto narrativo, os fatos se desenvolvem em sequências temporais, de modo que os verbos são realizados, principalmente (mas não exclusivamente), nos tempos pretéritos do modo indicativo. Esses tempos indicam que estamos contando ou narrando, o que caracteriza uma situação de locução narrativa.

A cunhã Inaiá e a cheia do rio Solimões é um texto narrativo, mas a autora preferiu usar os verbos no presente do indicativo, o que confere à narrativa uma atualização temporal. É como se a autora estivesse “narrando ao vivo”, bem ao estilo das transmissões da TV e/ou da Internet, em tempo real. Ao ler o texto, o(a) leitor(a) tem a impressão de estar debruçado(a) em uma janela, ao lado da autora, comtemplando o desenrolar da narrativa, a sucessão das ações, tudo como se fosse em tempo real.

Mais que isso, o(a) leitor(a) tem a sensação de participar dos acontecimentos, como experimentou Odenildo Sena:

“Voltei no tempo. Me deitei de barriga para baixo no assoalho ao lado de Inaiá. Fiquei com os olhos arregalados vendo os peixes brincando na água do rio. E pulei de surpresa quando Inaiá fez um enorme barulho dizendo que tinha visto um pirarucu” (Prefácio).

Em outro giro, o texto retrata uma cena típica da infância amazônica na periferia das cidades e vilas, bem como nas várzeas dos rios, lagos e igarapés, onde as casas, no nível máximo da cheia, são atingidas pelas águas, anualmente.

Em que pese o problema retratado no texto – as famílias pobres atingidas anualmente pelas enchentes – é uma composição marcada pelo otimismo, com texto breve, frases curtas e vocabulário do uso comum do povo, de modo que a imaginação suaviza a dura realidade, cedendo lugar à fantasia e ao sonho, sem, porém, alienar o(a) leitor(a).

Pelo contrário: a narrativa, enquanto deslumbra o(a) leitor(a) – pela identificação, no caso de criança e/ou adolescente; ou pela memória, no caso dos adultos -, provoca reflexões, indagações e consciência. Inaiá, a personagem principal, manifesta esta consciência pela imaginação fértil, não só quando contempla […] os peixinhos que nadam para lá e para cá, mas também, à noite, quando dorme e sonha.

A cunhã Inaiá e a cheia do rio Solimões, certamente vai cativar os leitores infanto-juvenis, mas, pelas mesmas razões, também vai conquistar o público adulto. A leitura promoverá, a um só tempo, um intenso prazer estético e uma reflexão iluminadora sobre a infância numa região com traços de paraíso e inferno. Vale a pena conferir.

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