Aparecimento de padres e freiras segundo a cosmovisão do povo Desâna

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Nas cabeceiras do rio Macu, a mulher de um Desâna, sem viver muito com o seu marido, ficou grávida e deu a luz a uma menina, que era do grupo Wali nãmi ioáliru (nome, noite, estrela vespertina, cujo nome atual é Semen peru porá (ntraduzível).

Aos dois anos de idade, já brincava de modo diferente das outras meninas comuns.

Aos três anos, cantava canto diferente, meio gaguejando, como toda criança, mas, muito melodiosos.

Ao atingir a idade de cinco anos, reuniu as suas companheiras e, com uns pauzinhos, fizeram uma cruz.

Aos treze anos pediu ao pai que fizesse um tambor e uma cruz de pau-brasil.

O pai não deu importância ao seu pedido, mas, diante da sua insistência, acabou fazendo-as.

Muito alegre, a menina instou suas companheiras a encomendarem, também, cruzes de seus respectivos pais.

Todas as tardes, essas meninas se reuniam para cantar cantigas que ninguém sabia de onde vinham.

Proibiram-nas de cantá-las, mas elas não obedeceram.

Aos quinze anos, essa menina do grupo Wali nãmi ioáliru disse a seus pais que quem lhe ensinava os cantos era um homem chamado Kirítu (Cristo), que vinha do céu, mandando-os cantar, a fim de perdoar os pecadores.

Os pais da menina não sabiam quem era esse Kirítu, mas ela acabou os convencendo de deveriam acreditar nele.

Nessa idade é que ela começou a cantar o canto de kusúsa, que seria o da cruz, o canto da Bíblia, que seria o de Maria e o de Yúse, que deveria ser José.

Cantava ainda o canto do Mestre, que deveria ser o mestre, o Olho Santo, que seria o dos santos.

Cantava ainda o Perdão dos Pecados, para quebrar os chifres dos homens maldosos.

E, quando apareciam homens que havia cometido pecados graves, ela caía no chão, porque sentia no seu corpo o peso dos pecados.

Dizia que, no céu, havia um Deus forte, que um dia vira para o meio deles.

A fama dessa menina espalhou-se por todos os rios: pelo Papuri, pelo Tiquié, pelo Uaupés e pelo Pirá.

Os moradores desses rios vinham vê-la e ouvir os seus cantos.

Assim os velhos das malocas também começaram a crer em Kirítu e em tudo o que a menina dizia.

Foi nessa época que as almas que estavam na Wahpíru wi desapareceram.

Parece que o canto de kirúsa (cruz) levou-a aos céus.

Diante dos prodígios dessa menina, alguns homens maldosos deram-lhe veneno para tirar a prova: se tivesse tanto poder, não morreria. Mas, a menina morreu.

Parece que Kirítu quis lavá-la. Com sua morte, a maioria do Desâno deixou de cantar os cantos que ela havia ensinado.

Muitos anos depois, apareceu outro profeta chamado Yewá. Era um grande pajé Tukâno, que passou a ser profeta.

Vivia num lugar chamado Capiim, onde hoje se localiza a missão colombiana Monfort, no rio Papuri.

Profetizou que chegaram homens de Deus, que seria chamados paiá, isto é, os padres hoje.

E que viriam, também, virgens vestidas de preto e com peitilho branco, as freiras.

Ele via esses homens e essas virgens através de um espalho que, numa visão, lhe fora dada por Deus.

Depois dessa profecia é que chegaram os padres e as irmãs.

Umúsin Panlõn Kumu e Toleman Kenhiri, em Antes o mundo não existia, Valer, 2021.

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