O zigue-zague da esquerda

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Não cabe aqui fazer um retrospecto sobre o momento em que ficam definidos estes dois ideários extremamente antagônicos entre si. Mas, vale lembrar que o conjunto de ideias e procedimentos    da Esquerda são mais próximos à contemporaneidade, enquanto as ideias, as visões de mundo e os procedimentos de ação política atribuídos à Direita são bem mais antigos e estão ligados ao conservadorismo, às garantias de privilégios e ao patrimonialismo exacerbado.

As democracias ocidentais e as influenciadas por elas como o Brasil não compartilham um ideário uníssono, o que se quer dizer, há coisas que não fazem parte do ideário liberal que as democracias ocidentais, mesmo de direita, não incorporaram, como o “golpismo”, o “fascismo” e a supressão dos “direitos humanos”. É por isso que, na América Latina, incluído aí o Brasil, os regimes democráticos, quando abraçam esses ideários, mesmo mascaradamente, não merecem outra classificação que não seja a de ditadura, com ideário de extrema direita bem definido. Não cabe, assim, falar em “ditadura branda” ou “boazinha”. Isso é escárnio!

Em 1988, promulgada a Constituição Federal, o Brasil deixou o “pântano enganoso” da Ditadura e adquiriu o status de Estado Democrático de Direito. A convivência de ideários diversificados e animados pelas liberdades democráticas moldou os novos partidos que disputaram a arena política e ficaram mais claras as nuances entre esquerda e direita para uma maioria de cidadãos brasileiros, o que permitiu uma alternância de poder.

Infelizmente, esse momento teve uma duração curta. Em parte, ditada pela crise do capital, pela globalização da economia e o seu ideário neoliberal, que se aproximava muito mais de um capitalismo financeiro aliado ao ideário de direita, com o objetivo de eliminar os “entraves” que a classe operária definiu e conquistou.

Por outra parte, pela transição incompleta, que não conseguiu abolir o “militarismo retrógrado” e conter os “viúvos da ditadura”, estes incarnados mais nas frações das elites, que ainda se ressentem da perda dos privilégios que usufruíam. Isso tudo tornou possível a reorganização da extrema direita: primeiro, negando a política partidária; depois, tomando como base as instituições corporativas de elite, credos religiosos e grupos fascistas, muitos dos quais já habitando o submundo da sociedade.

“A crise da democracia liberal atropela a esquerda em um momento de fragilidade e indecisão programática – não por acaso a crer na tese (…) de que a força do regime democrático está ligada à capacidade que a classe trabalhadora e outros grupos subalternos têm de impor limites à dominação” (Luís Felipe Miguel, Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil, p.279, 2022). Assim sendo, na medida em que a desigualdade social recrudesce, que a classe trabalhadora já não ocupa os mesmos espaços devido às mudanças no mundo do trabalho, esse poder para limitar a dominação fenece. Os partidos que a representam, ou desaparecem ou aceitam pactos com o centro, representado por grupamentos numerosos, mas que não se veem como parte da classe trabalhadora, bem como não conseguem, também, manter a condição de independência dos nichos de poder prevalentes.

O que assistimos é o zigue-zague da esquerda, procurando um espaço para apoiar-se com base em concessões em seu ideário para garantir, no confronto com a extrema direita empoderada, o seu retorno ao centro do poder. Esse pragmatismo está a exigir uma engenharia política que não mais se assemelha aos pactos anteriores para “salvar o país do pior”, visto que a crise não é somente local, tem raízes nos erros da própria esquerda, no mundo todo, e na “pulsão de morte” a tudo que  representa o novo, a liberdade e os direitos individuais, fruto de uma luta de mais de dois séculos, com os quais a extrema direita jamais concordou.

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