Uma poética da infância

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O lançamento de um livro é um momento sublime. Mais um universo fará parte de nossas vidas.

O livro que Rosely Barros lança não é um livro simplesmente, trata-se de uma narrativa carregada de significado que por ela perpassam vários olhares, várias histórias, várias vidas.

Já conhecendo os dois outros trabalhos da autora, identifico, salvo engano, o fio condutor de sua temática: a infância.

Em Engenho de Darléia, (2018), verifica-se que o conto Olhos de Pedra de Amolar sintetiza essa obra ao transportar o leitor para o passado, numa viagem ao tempo de visita a parentes que ficaram no lugar de origem, das brincadeiras de roda, de pular n’água com os primos, de ouvir história dos mais velhos sob um céu estrelado.

Tempo em que podíamos sonhar e tornar os sonhos realidade. Em seu segundo livro Por um Par de Sandálias, (2020), o tema infância também é recorrente.

Narra a história de Malaliel e Maviniel, ainda meninos que vivem uma aventura a partir da separação de seus pais.

Hoje Rosely Barros nos traz mais um diamante multifacetado de sua mina – Inaiá Cunhantã e a Cheia do Rio Solimões, uma poesia de primeira grandeza, mesmo sendo escrito em prosa. E por que poesia? Ao atentar para sua escrita verifico que várias poéticas se configuram em seu texto.

A Poética de Infância – tempo de descoberta do mundo e do espaço que circunda o ser humano. Ao olhar por uma fresta do assoalho Inaiá vislumbra outros universos: as águas, os peixes.

Ao se debruçar verifica-se que a personagem volta-se à si mesma numa posição e atitude que podemos interpretar como Poética do Ser – da busca da identidade, para citar um dos aforismos mais famosos da história atribuído a Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses,” do autoconhecer-se, do tornar-se parte intrínseca de um contexto, da simbiose do mundo sensível e do mundo subjetivo, singular, introspectivo.

Inaiá conhece a mãe, a casa, com certeza suas bonecas, frutas e alimentos, mas também conhece algum tipo de peixe (outro universo). Ela já conhece parte de seu mundo, mas quer mergulhar na dimensão do conhecimento a do autoconhecimento, fisgando boas sardinhas para alimentar a sua vida como Ser que se relaciona com seu semelhante.

Rosely Barros também toca com essa narrativa na Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, quando apresenta-nos uma humilde residência à beira do rio Solimões, nos lembrando do cenário das grandes águas no período da cheia, sua beleza e dificuldades, tragédias e alegrias; e oposto à cheia, o cenário da plantação, das folhas verdejantes, da colheita, da fartura no período da vazante, cenário que penso que todos conhecemos, e podemos descrever a partir de nossas próprias experiências.

Para citar Socorro Santiago, a autora nos insere na Poética das Águas, líquido primordial à vida. E transversaliza com Freud e Jung ao mergulhar nas águas do Ser, universo do inconsciente, mundo do qual emergem ações e emoções que fazemos irreflexivas. Mundo das sardinhas (águas iluminadas).

Mundo dos mussuns e pirarucus-boia (lugares escuros). É pelas águas desses rios, lagos e igarapés que a autora nos faz viajar por um farto universo de interpretações.

Rosely Barros nos encanta com sua Inaiá Cunhatã colocando na voz dessa personagem a Poética da Linguagem ao escolher palavras que evidenciam o nosso Amazonas.

Palavras como: brecha, mussum, pirarucu-boia, cará, tartaruga, jacaré, sulamba. Palavras que fazem parte do nosso universo, em particular, do universo interiorano.

Completando sua aquarela poética, posto que a autora também é artista plástica, consigo vislumbrar em Inaiá Cunhatã a Poética do Arco-íris, em que cada página e imagens multicoloridas nos remetem a sentimento de leveza, contentamento e êxtase, dando-nos a impressão de quererem falar por si mesmas, apresentando-nos imagens lúdicas, vibrações pictóricas, jogo de claro-escuro.

A autora fecha sua obra com a palavra Festa, mas festa mesmo quando lemos a contracapa:

“O rio sobe, o rio desce,

O rio traz novidades,

O rio brinca com curumins e cunhatãs,

O rio traz os peixes.

Curumins e cunhantã trazem os risos.”

Texto apoteótico. Quanta figura de linguagem! Quanto significado!

Por fim, sei que podemos apontar várias outras poéticas presentes nesse calidoscópio, mas espero que cada um se encante e se extasie com a poética que Inaiá Cunhatã lhe apontar.

Parabéns Odaléia, pelo belíssimo livro, que a Rosely Barros nos traga outras obras encantadoras com novas personagens vislumbrantes.

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