Leitura para amazonizar

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Escrever o contexto amazônico com suavidade é sempre desafio. Muito se fala de Amazônia, porém, com um olhar conquistador, como se a região e sua biodiversidade tivessem que ser subjugadas ou domadas permanente.

A fala do colonizador ou do colonizado soa como se aqui fosse um lugar isolado, muito distante e antigo, para não dizer antiquado, onde a civilidade é escassa. Assim, paira no ar algo misterioso, como se pela região ainda pudéssemos ver dinossauros correndo as margens do rio.

Falar de amazonidades para crianças é, portanto, o desafio mais sutil, pois é relevante transmitir uma mensagem com delicadeza e carinho sobre preservação da vida, pela qual os personagens agucem a imaginação e se tornem motivo de curiosidade.

O livro Inaiá Cunhatã e a cheia do rio Solimões, escrito pela pedagoga Rosely Barros,  tem essa delicadeza nos detalhes.

A narrativa nos carrega de uma visão infantil sobre a cheia do rio em uma casa que aqui,  no norte, chamamos de palafitas, habitações totalmente adaptadas para as subidas e descidas das águas fluviais. Essas águas que marcam a passagem das estações na Amazônia.

Inaiá é uma criança curiosa que deitada no assoalho observa os peixes nadando por debaixo de sua casa palafita. Com uma ideia bem nortista, ela decida fazer uma pesca por uma fresta maior do assoalho e lá mantém a sua vigilância de pescadora.

Por meio dessa atitude, são apresentados aos leitores a variedade de peixes amazônicos e a observação da menina nos transmite a personalidade dessas criaturas, com a ajuda narrativa que transforma a leitura em diversão para os mais novos e em nostalgia para os mais velhos.

Rosely Barros, escritora professora

Capturar a amazonidade de uma criança na cheia do rio é uma gentileza que esse livro nos proporciona.

A autora manacapuruense é também uma artista com outras vias de expressão, como a pintura em aquarela que, inclusive, já tiveram uma exposição em 1996, e a costura.

Os personagens e cenários feitos de feltro são suas obras de arte, organizados e fotografados para construir as cenas e cenários dessa narrativa. Detalhe que transmite ainda mais afabilidade à obra, que torna-se também uma leitura além da escrita alfabética, pois o cenário proposto é trabalhado para ter similaridade com a vida do caboclo ribeirinho.

Os brinquedos e a estética característicos da infância cabocla são muito bem representados na confecção artística do livro, conjunto que trás uma exposição muito própria.

Tais recursos me lembram os brinquedos de miriti utilizados em Belém do Pará e, também, os bonecos de pano que eram usados na antiga série Cata-Lendas, transmitido na TV Cultura na década de 1990. Nessa série de linguagem infantil eram abordadas lendas amazônicas.

Inaiá Cunhatã e a cheia do rio Solimões é uma leitura afável para as muitas gerações, uma boa oportunidade para amazonizar e despertar nas crianças a curiosidade e o carinho por essa terra.

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