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Rico e pobre como conceitos rasos para compreender os mundos amazônicos

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Banzeiro Òkòtó:uma viagem à Amazônia centro do mundo (Companhia das Letras), de Eliane Brum, trata da relação dos povos dos rios e das florestas entre si e com as sociedades ocidentais e ocidentalizadas sob a influência do capitalismo.

Por meio de escrita elegante, porém contundente, a autora faz e propõe reflexões para além das interpretações rasas a  respeito dos modos de vida dos povos amazônicos no contexto da invasão das suas terras ontem e hoje. O livro é, também, uma denúncia das atrocidades contra a vida em nome dos falsos conceitos de riqueza e pobreza no ambiente da vida não fragmentada entre natureza e cultura.

[…]No capitalismo, ser pobre ou ser rico está diretamente relacionado à quantidade e à qualidade dos bens materiais. O efeito imediato é a conversão dos pobres numa categoria homogênea, um genérico chamado “pobres” é essencial para o funcionamento do capitalismo.

Mesmo a esquerda mais radical não questiona o conceito de pobreza. Ao contrário, a pobreza é vista como uma condição que precisaria ser superada apenas do ponto de vista material: enquanto conceito, enquanto ethos, quase nunca é questionada […]

[…] Guardadas as diferenças dos atores que travam o debate da riqueza e da pobreza em várias esferas, da religião e da cultural, da economia e da política, a discussão ideológica se dá quase que exclusivamente em torno de como superar a pobreza.

Se há diferentes interpretações sobre suas causas e soluções, há escassas divergências sobre o seu conceito, para além da quantidade de dólares por dia que traçaria a linha da pobreza e da miséria.

Os povos da floresta, os que se mantiveram agarrados na terra confrontam diretamente essa interpretação do mundo. Confrontam pela própria existência, pelo próprio modo de vida. Eles não cabem no binômio pobre/rico.

Quando são chamados a se encaixar, bagunçam os conceitos, ao afirmar, como já mencionei, que ser rico é não precisar de dinheiro – o que no caso deles significa que na floresta há tudo de que precisam – por exemplo, ter patrão e precisar trabalhar quando o patrão quer.

Eles consideram pobríssimo, por exemplo, um alto executivo de corporação transnacional conectado ao modo de trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana, num ambiente climatizado, em meio a móveis de design exclusivo, com roupas de grifes internacionais, locomovendo-se de helicóptero e jatinho particular, ligado a todo aparato tecnológico de última geração.

Os beiradeiros podem acordar pela manhã com vontade de pescar, e então pecam. Podem mudar de ideia e, em vez de percar por um dia, seguirem pode dez. Rumarem para a roça de subsistência, ou resolver fazer outra coisa, até mesmo nada, e deixar para o dia seguinte.

Podem morar por anos num canto do rio e, por alguma razão ou por gosto, decidam fazer a casa em outra margem. Podem até resolver alugar o trabalho do corpo para um fazendeiro, se precisarem de dinheiro por algum motivo, mas deixam o serviço assim que o objetivo pontual é cumprido.

A vida é viver, não acumular. Como natureza na natureza, nada de essencial lhes falta […]

Eliane Brum, em Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

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