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A estultice do bumba-meu-boi: o texto histórico do padre Lopes Gama

Esta crônica é reconhecida com o registro mais antigo da presença do bumba-meu-boi em terras brasileiras. O seu autor é o padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, que atuou como jornalista, no meado do século 19, em Pernambuco, sem se dedicar exclusivamente em narrar as pelejas partidárias. Em seu jornal O carapuceiro, homônimo do livro organizado por Evaldo Cabral de Mello, Lopes Gama escreve, também, suas críticas aos costumes e valores da época, como é este caso destas estripulias do bumba-meu-boi. Confira:

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De quantos recreios, folganças e desenfados populares há em nosso Pernambuco, eu não conheço um tão tolo, tão estúpido e destituído de graça como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi.

Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação; é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi; um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se o cavalo-marinho; outro, alapardado sob lençóis, denomina-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo, outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama a caipora.

Há além disto outro capadócio que se chama o pai Mateus. O sujeito do cavalo-marinho é senhor do boi, da burrinha, da caipora e de Mateus. Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda esta súcia fazer dançar, ao som de violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal bêbado Mateus, a burrinha, a caipora, o boi (que com efeito é animal muito ligeirinho, trêfego e bailarino).

Além disto o boi morre sempre sem quê nem para quê, e ressuscita por virtude de um clister que pespega o Mateus, coisa muito agradável e divertida para os judiciosos espectadores.

Até aqui não passa o tal divertimento de um brinco popular e grandemente desengraçado. Mas de certos anos para cá não há bumba-meu-boi que preste, se nele não aparece um sujeito vestido de clérigo, e algumas vezes de roquete e estola para servir de bobo da função.

Quem faz ordinariamente o papel de sacerdote bufo é um brejeirote despejado, e escolhido para desempenhar a tarefa até o mais porco e nojento ridículo. Em um país católico romano consente-se e aplaude-se que na maior publicidade sirva de bobo um bandalho disfarçado em sacerdote, e com as vestimentas do culto.

E para complemento de escárnio esse padre bufo ouve de confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas ao ar o seu confessor, e acaba, como é natural, dando muita chicotada no sacerdote!

Quem acreditará que tal se consinta e aprove em uma província das mais polidas do império do Brasil? Como é possível ludibriar e escarnecer mais o estado sacerdotal? Como se vê de sangue-frio e com satisfação tornar-se burlesco e ridículo o santo e terribilíssimo Tribunal da Penitência, um dos sacramentos da Santa Madre Igreja? Querem sinal menos equívoco do desprezo e abjeção a que tem chegado entre nós o ministério sagrado, e conseguintemente a religião?

Alguns inconsiderados e iscados da lepra irreligiosa riem destes meus reparos, e procuram coonestar esse desaforo e imoralidade suma e imoralidade suma dizendo que muitos padres são relaxados, e por isso fazem-se credores destes e de outros motejos. Infelizmente vários padres entre nós são tão peraltas, tão frascários e desregrados, que só serviam para padres de bumba-meu-boi e de fandangos.

Mas qual é a condição, classe ou hierarquia no Brasil em que se não encontrem indivíduos indigníssimos por sua relaxação e imoralidade? Mas por que se não procura para fazer a figura de bobo um magistrado venal, por exemplo, um militar covarde, uma autoridade despótica, um comerciante velhaquete, um empregado concussionário etc. etc.?

Só a classe dos ministros da religião é objeto de farsas burlescas e vive exposta aos mais sórdidos motejos do vulgo. E qual será a razão disto? Eu não conheço outra, senão o menosprezo em que tem caído entre nós a santa religião de nossos pais. A incredulidade tem-se derramado largamente pelo nosso povo, e daqui a maior parte dos nossos males morais. Qual é o jovem de alguma limpeza que não tenha lido e abraçado com sumo gosto as belas máximas da Pavorosa ilusão da eternidade, as Liras de José Anastácio, a carta apócrifa de Talleyrand ao papa, e o Citador de Pigault Le Brun?

Tais são os seus catecismos, tais são os seus livros mimosos. Muitas vezes encontramos um pastrano que fala tão mal, como um preto boçal, que escreve porca e miseravelmente, que nunca estudou coisa alguma e. todavia, é um ímpio consumado, rindo da existência de uma vida futura, da imortalidade da alma, dogmas essenciais a toda e qualquer religião, mofando da revelação, dos sacramentos, preceitos e cerimônias da Igreja etc. etc.

Em consequência de tais doutrinas, que triste, que lastimosa, que horrível não é entre nós a educação doméstica! Os meninos vão-se criando como selvagens. Alguns pais apenas fazem batizar seus filhos já taludos, e só por mera cerimônia. Fora deste ato religioso, o menino não vê na casa paterna coisa alguma que lhe dê a menor ideia de dependência e de deveres para com o Ente dos entes e supremo senhor do mundo.

Apenas ouvirá a algum dos muitos filósofos de curiosidade, que pululam por aí como mata-pasto, que há um criador de tudo, mas que este é um Deus de Epicuro, um Deus que tanto se importa com as nossas ações, como nós nos importamos com o que se passa na Trebisonda. Conseguintemente a lei suprema é gozar; o prazer é o único móvel das suas ações. E quando muito apenas lhe ensinam que seja cauteloso para forrar- se à perseguição das leis criminais.

Se tal é pela maior parte do ensino da gente média, e superior, por que nos admiramos de tanta imoralidade? O que foi de Roma, logo que nela se generalizou a doutrina de Epicuro, ou antes de seus exagerados discípulos? Nos teatros públicos cantava-se post mortem nihil, ipsaque mors nihil est;  Horácio endeusava a crápula, Ovídio os amores, tudo foi corrupção, venalidade, baixeza, servilismo, e a senhora das nações veio a ser presa e ludíbrio daqueles mesmos, a quem chamavam povos bárbaros.

As doutrinas dominam o mundo, e passam insensivelmente das classes superiores às médias, destas ao miuçalho, e até à ínfima canalha, à maneira da pedra, que lançada no meio de um lago faz com que as águas vão descrevendo círculos concêntricos, que se vão dilatando mais e mais à proporção que se apartam do foco do movimento.

E nem me salte alguém pela proa, dizendo que o nosso povo é religioso. Não: o nosso povo, falando em toda a generalidade, não tem a verdadeira religião; tem pela maior parte superstição. Essas novenas, essas festas que por aí se fazem, raramente procedem de legítima e sólida piedade.

Muitos as promovem, e vão a elas sem lhes dar valor algum religioso, tomam-nas por meros divertimentos populares, como qualquer bumba-meu-boi ou fandango. Outros, que ainda têm crença, mas relaxados em sua conduta, entendem que por esse meio saldarão as suas contas com o Juiz Supremo, e poderão continuar impunemente na carreira de seus

vícios.

Os detestáveis dogmas da incredulidade, que denegriram a Revolução Francesa nos fins do século passado, o ateísmo e materialismo brutal de La Grange, do barão d’Holbach, de Diderot e Helvécio, o deísmo zombeteiro de Voltaire e de Parny, ou declamador, paradoxo e misantropo de J.-J. Rousseau ainda são os mimosos do nosso Brasil. Infelizmente ainda estamos a este respeito no século XVIII. Hoje na polida Europa qualquer moço bem-educado correr-se-ia de citar Dupuy, Voltaire etc. etc. Entre nós, qual é o jovem desenvolvido e de bom-tom, que os não tenha por seus mestres e guias?

As nossas meninas, geralmente falando, recebem uma educação meramente sensual. Todo o desvelo dos pais limita-se a fazê-las aprender a música, o piano, danças de todas as castas, a coser e bordar, ler e escrever, e a infundir-lhes nos tenros coraçõezinhos todo o gênero de vaidades.

A respeito de religião apenas quatro coisas aprendidas materialmente nas escolas; e da verdadeira e sólida piedade nada vêem as meninas e nada aprendem. Todos os seus pensamentos giram no círculo das sedas, das galas, das louçainhas, das modas, das convivências, das partidas e bailes.

O seu único recreio espiritual é a lição do imenso armazém das novelas. Perguntai-lhes pela história da criação do mundo, da queda de nossos primeiros pais, do dilúvio, da vocação de Abraão, da lei escrita, da vinda do Redentor, da sua vida, da sua paixão, morte e ressurreição, da vinda do Espírito Santo, da missão dos apóstolos, da miraculosa propagação do cristianismo, dos santos preceitos, dos sublimes conselhos do Evangelho etc. etc. Elas tudo ignoram, mas falai-lhes na Joaninha, na Adelaide, no Menino da selva, em Mil e uma noites, em Mil e um quarto de horas etc. etc., e pasmareis da sua erudição no gênero importante das novelas.

Com tais elementos nada deve admirar do que vai pelo nosso Brasil. Uma filosofia toda sensual tem-se embebido nos corações de uma grande parte de nós. Só aspiramos a gozos materiais, e daqui a razão suficiente da nossa tão geral imoralidade. Os pequenos, que em toda parte macaqueiam os grandes, abraçam os seus exemplos, e destes aprendem a desprezar a religião e muitas vezes a mofar dela. Muitas vezes o homem simples e rústico ouve da boca do próprio sacerdote motejos contra os dogmas mais respeitáveis da revelação. Quando a impiedade chega que costumes se deve esperar de tal povo? a invadir o santuário, quando se corrompe o próprio sal,

Parece-me que com razão atribuo essa corrupção às classes mais elevadas, por que quem é, por exemplo, que paga generosamente, que convida e aplaude o bumba-meu-boi e os fandangos, onde se escarnece vergonhosamente o estado sacerdotal, onde aparecem não poucas imoralidades?

Não é decerto a gente baixa e pobre. Se esta não visse bem-aceita a tal folgança, se soubesse que os senhores agentes da polícia não consentiam esses desaforos, esse escárnio público aos ministros da religião, abriria mão de bumba-meu-boi e fandangos, ou caso continuasse nessa estúpida folgança abster-se-ia da nojenta farsa do padre, e mais da confissão etc. etc. Mas como se há de proibir o bumba-meu-boi, se dona Mariquinhas, dona Teté, dona Canexa, dona Chiquinha, dona Belinha, dona Faustolina, dona Fandangolina, dona Galopinda, dona Caxuxolina gostam tanto deste precioso divertimento?

Alardeamos os nossos progressos de civilização, e ainda aplaudimos o bumba-meu-boi, folguedo que, sobre o que tem de imoral, pode-se chamar o non plus ultra da estupidez e da tolice! Não sei quando tomaremos juízo.

Padre Lopes Gama, em O carapuceiro (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo:  Companhia das Letras, 1996.

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