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O furto das sementes de seringueiras em A árvore que chora, de Vick Baum

Trecho instigante do livro A árvore que chora: o romance da borracha (Valer), de Vick Baum (1888-1960), nascida na Áustria e radicada nos Estados Unidos a partir1930. A Valer entregou aos leitores, no ano passado, a obra que inaugura as narrativas épicas sobre a exploração dos seringais da Amazônia. Havia mais setenta anos o livro estava com a edição esgotada no Brasil, embora importante para a compreensão do período da economia amazônica mais pujante e marcado pelo enriquecimento das elites comerciais graças ao trabalho exaustivo e desumano dos seringueiros no interior das florestas e rios. Este trecho se refere a uma espécie de remorso do jardineiro Daniel com o furto das sementes de seringueiras praticado pelo Mr. Henry Wickham e aclimatadas nos Jardins de Kew, na Inglaterra. A personagem ressente-se pelo valor e prioridade que Wickham dedica ao cultivo das sementes de árvores feias em detrimento das suas orquídeas lindas. Delicie-se!

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[…]

Vovó, conheço tanto botânica econômica como qualquer dos meus companheiros, mas este caso nos parece uma questão intoleravelmente mercenária.

Não sei bem como dizê-lo, mas é como se afirmassem que as orquídeas são inúteis, a despeito da alegria e da felicidade que a sua beleza nos proporciona, ao passo que a borracha é feia mais útil e, portanto. tem preferência. Mas duvido muito que a vida seja interessante de viver num mundo onde todas as coisas belas se vejam desalojadas para dar lugar ao que é exclusivamente útil.

Enquanto ia carregando os vasos de orquídeas e colocando-os no gramado, parecia-me sentir o cheiro da borracha. Galochas, capuzes e impermeáveis. Creio que borracha significa dinheiro, pois muita gente enriquece pelo simples fato de jogar na bolsa com ações de empresas de exploração de borracha. E possível que, se conseguirmos resultados com o cultivo da hevea, se verifique maior prosperidade em algumas das nossas colônias. trazendo lucros mais altos e enriquecendo um certo número de pessoas graças a essas malditas sementes.

Mas não é essa a minha maneira de ver as plantas – nem minha nem de Twiddle nem de nenhum de nós aqui. O que sei é que a minha vanda coerulea foi sacrificada. Desejei fervorosamente – e ainda desejo – que tivessem deixado a hevea brasiliensis no Brasil, que é o seu habitat, ao invés de furtá-la sob o nariz do próprio governo brasileiro.

Digo que a furtaram porque foi essa a expressão que Twiddle empregou. Parece que a América do Sul ainda se sente ofendida pelo fato de exportarmos e cultivarmos quinino, se bem que tenhamos feito tal coisa não em proveito próprio, mas em benefício da raça humana, na sua luta contra a malária.

A partir de então, o Brasil passou a tomar precauções contra semelhantes exportações. Mesmo quando o nosso cônsul pediu permissão para exportar algumas sementes a fim de integrar as coleções dos nossos jardins botânicos, o governo brasileiro recusou. Como é que podemos, pois, receber de repente setenta mil sementes?

Bem, o indivíduo que chegou por volta das doze horas daquele dia com as suas sementes parecia bastante esperto para ludibriar qualquer governo. Devo confessar-lhe que simpatizei com o camarada à primeira vista, e como se tratava da primer vez também em que senti ódio a alguém ou a alguma coisa, tal sentimento me foi bastante penosa como se eu tivesse comido algo de indigesto.

Não é que Wickham seja por si mesmo antipático (Henry Wickham é o nome dele), até pelo contrário. É um sujeito corpulento, de cabelos louros, de olhos encovados, mas talvez um pouco demasiadamente vivos, o nariz retilíneo e em queixo longo e obstinadamente inglês.

Diz-se que o Sr. Wickham recebeu uma gorda quantia pela sua proeza, circunstância que não torna a transação menos condenável. Pois bem, para encurtar narrativa tão penosa: naquela tarde mesma, preparamos os estrados para o replantio fazendo-se uma mistura de marga, adubo e areia, que envolvemos em folhas secas, enquanto o tal de Wickham agia como se fosse o dono dos Jardins de Kew.

Wickham parecia estranhamente orgulhoso da maneira como arrumava as mudas – com muito jeito aliás, segundo me pareceu – envolvendo-as em tiras de folhas secas de bananeira. As sementes eram lisas mosqueadas de cor castanha. Não se tratava, como vê, de sementes de ficus elástica, planta comumente chamada de borracha, e que segundo fui informado, está sendo submetida a felizes experiências na Índia e em outras partes. A hevea brasiliensis nunca medrou em outras regiões a não ser nas selvas do vale amazônico.

E agora é que vou referir-me à passagem mais penosa da minha narrativa. Naquela mesma noite, desencadeou-se um terrível temporal, o que fez que a temperatura descesse a 12° C.

Levantei-me durante a noite, preocupado com a minha vanda que jazia lá fora exposta à tempestade. Se soubesse como fazê-lo, teria pulado o muro e a teria levado comigo para o meu pequeno aquecido quarto. No entanto, se o tivesse feito, suponho que o vigia teria descarregado em cima de mim a carga da sua espingarda.

Quatro dias depois, os seus botões, mal despontados, começaram a fenecer e a cair um por um, e ainda que espere que não morra, é certo, no entanto, que já não florescerá mais, neste ano pelo menos – se é que o fará algum dia ainda.

Enquanto isso, essas desprezíveis e vulgares sementes de borracha vão brotando aos milhares. O velho Barbudo parece sumamente satisfeito com o acontecimento e disse que o deve, em grande parte, a mim.

Entrementes, aquele horrível Wickham vive a correr de um lado para outro, metendo-se com todo mundo e comportando-se como se o nosso orquidário fosse a sua plantação particular de borracha e eu e Twiddle, dois cules ignorantes.

Às vezes tenho vontade de fazer com essas plantas o mesmo que fiz com os meus primeiros rabanetes: arrancá-los dos canteiros quando ninguém estiver olhando. De fato, era isso que eu gostaria de fazer. Todavia nunca pensei que pudesse odiar as plantas que me fossem confiadas.

Perdoe-me essa carta desagradável, meu querido avô, mas o senhor é a única pessoa a que em poderia confiar tais sentimentos – principalmente agora que Pritchard nos deixa partido para Clelsea.

Fielmente,

Daniel

[…]

Manaus: Valer, 2022

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