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A viagem de Sartre e Simone de Beauvoir à Amazônia

“[...] A meu ver, seja do ponto de vista da distribuição temática, seja do ponto do efetivamente dito e sugerido, este livro é até agora o testemunho que mais de perto corresponde à abrangência e à complexidade daquilo que esteve em pauta ao longo dessa passagem pelos trópicos de um tão ardoroso agitador de ideias [...]”. Afirmação é do prefaciador da obra, Luiz B. L. Orlandi, que confere a Sartre e Simone de Beauvoir a importância que essa visita teve para os intelectuais brasileiros, década de 1960. Afinal, o casal viria a marcar, a partir de então, o jeito de pensar e viver das futuras gerações.

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[…] Conversas com Alejo Carpentier e Lévi-Strauss despertam a curiosidade de Sartre e Simone sobre a Amazônia. Dessa vez ninguém os havia convidado, mesmo assim se arriscam nesse novo destino que talvez eles imaginassem como selvagem (afinal, da ilha do Bananal, Simone via o “perigoso’ Mato Grosso do outro lado”).

Chegam, uma noite, a Belém. Experimentam, pela primeira vez no Brasil, a agradável sensação de não serem esperados em um novo lugar.

Finalmente, na Amazônia podem desfrutar da aventura de serem apenas turistas, misto de intruso e curioso. Não há registros de que tivessem feito qualquer conferência ou participado de debates, nem mesmo que tivessem dado entrevistas coletivas à imprensa.

Entretanto, em Belém existe alguém que, a distância, já tivera uma estranha ligação com Sartre, agora tem a oportunidade de encontrá-lo vivo: o jornalista que, embriagado, havia anunciado a morte do filósofo em acidente de automóvel nos arredores de Belém, furo que chegou ao conhecimento do círculo de amigos de Sartre em Paris, apresentou-se à sua vítima sem o menor constrangimento; “Certa manhã, no bar do hotel, um jornalista abordou Sartre: ‘Fui eu o primeiro a anunciar sua morte’, disse-lhe ele” (ibid., p. 291).

Em Belém lhes desagrada a extrema umidade e calor do clima equatorial, passam dificuldades hotel queria aceitá-los. Acabam tendo de aceitar um desvantajoso câmbio para trocar seus Francos franceses, nem mesmo o hotel queria aceitá-los. Acabam tendo de aceitar um desvantajoso câmbio oferecido por um comerciante de quinquilharias indígenas, que lhes pagou metade do valor real de seus Francos, segundo relata Simone de Beauvoir. Esses contratempos não os impedem de admirar as dimensões da natureza amazônica.

A escritora descreve com lirismo a desembocadura do rio Amazonas, com trezentos quilômetros de largura, a ilha de Marajó, maior do que a Suíça! E os deliciosos sorvetes de exóticas frutas que tomaram num quiosque no centro de Belém… Vão também ao mercado do Ver-o-Peso e admiram- se com as casas e igrejas coloniais da cidade. Sentem também ali o clima da eleição presidencial: “Durante o dia todo, alto-falantes ambulantes incitavam os eleitores a votarem em Jânio e, à noite, milhares de foguetes explodiam. Ao contrário, o dia das eleições foi muito calmo” (ibid.).

Depois de Belém, a próxima cidade visitada é Manaus, da qual Simone delineia um cenário precário, decadente e de clima sufocante. Parece conhecer a história da antiga capital mundial da borracha, deslumbram-se com o teatro. Na época, não havia eletricidade em Manaus e a comunicação telefônica era muito precária.

Na cidade, conhecem um velho joalheiro alsaciano com quem conseguem trocar Francos por seu verdadeiro valor. Esse homem lhes apresentou um representante consular francês, estabelecido há cinquenta anos no Amazonas, que os levou a percorrer, de automóvel, um caminho que atravessa um trecho da floresta. Decepcionam-se, a mata é muito fechada e nada se vê além de um paredão de imensas árvores, preferiram a luminosa floresta da Tijuca no Rio.

Simone sofre demais com o calor, quer partir, mas não conseguem as passagens para Cuba e nem uma ligação telefônica para o Rio. Desejariam estar em Paris, onde já havia começado o julgamento do amigo Francis Jeanson. Ou, ao menos, em Recife, de onde seria mais fácil a comunicação.

Ainda em Manaus, recebem uma chamada telefônica de Claude Lanzmann, que para ser completada tiveram de esperar cerca de duas horas depois de anunciada, Lanzmann lhes pedia que não voltassem a Paris enquanto não recebessem uma carta sua.

Já havia começado a apuração das eleições presidenciais brasileiras, deixam Manaus com a informação de que Jânio venceria. O governador do Amazonas era homem de esquerda e votara em Lott; Simone anota em seu diário um comentário do cônsul francês sobre os políticos brasileiros, que parafraseia e generaliza o lema “oficioso” de um terceiro candidato à presidência, Adhemar de Barros, e pode nos dar a ideia, através da isenta visão de um estrangeiro que aqui vivia, que de lá para cá a mentalidade política do brasileiro pouco mudou: “Há duas espécies de governadores: os maus, que põem todo o dinheiro no bolso e nada fazem; os bons, que põem dinheiro no bolso e fazem alguma coisa” […]

Luís Antônio Cantatori Romano, em A passagem de Sartre Simone e Beauvoir pelo Brasil em 1960. Campinas (SP): Fapesp/Mercado de Letras, 2002.

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