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Tambataja, uma narrativa de amor profundo e punição (Versão taulipangue)

Belíssima narrativa colhida pelo indigenista Nunes Pereira entre os indígenas Taulinpangue, na região de Roraima, fronteira do Brasil com a Venezuela e Guiana.

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Uma índia macuxi fugiu da Maloca Bonita, no rio Surumu, com o filho de um tuxaua taulipangue.




Os pais e parentes dela ficaram zangados. E os pais e parentes dele, também.

Mas a moça macuxi e o moço taulipangue não se impor taram com a zanga dos velhos, porque se queriam muito na força do seu desejo.

E foram morar para as bandas da Serra da Lua, do outro lado do río Tacutu, onde viviam uns parentes dele.




E nunca se separavam.

Se ele ia pescar, ela ia também.

Se ela ia banhar-se, ele ia também.




Se ele ia caçar, ela ia também.

Se ele ia para a roça, ela ia também.

Nove meses depois a índia sentiu que ia ser mãe. Assim, à hora em que o sol de verão obriga a toda gente (e mesmo os animais) a repousar na sombra, ela se encaminhou para a beira do rio Tacutu.

E lá onde encontrou um chão bem limpo, debaixo das ramas do ingá-i, pariu um menino.

O corpo dele era engelhado como a pele e roxo como a tinta do jenipapo.

E, enquanto mirava a criança com tristeza e lhe ia tirando as peles do corpinho, viu que nem mexia os braços e nem mexia as pernas.




Sentou-se, por isso, junto à água e nela a mergulhou três vezes. E três vezes lhe deu leves palmadas nas costas e nas pernas para a animar.

Mas a criança não se mexeu e nem chorou. E arquejava. E todo o seu corpo tremia.

A mulher tentou levantar-se. Doíam-lhe os quadris e suas pernas não lhe sustentavam o corpo.

Então, gritou, gritou, gritou.

E parecia que o vento dos campos, soprando sobre as serras e os rios, não deixaria nunca, nunca, que alguém a ouvisse. Mas as mulheres e curumins que vinham banhar-se, a ouviram. E foram no rumo daqueles gritos.

A índia estava ali. Tinha um menino morto nos braços. E não podia levantar-se.

Um dos curumins foi chamar o companheiro da índia. Vieram muitos homens com ele.

Uma das velhas, chamando outras, havia cochichado:

Essa não respeitou os conselhos que lhe deram quando enluou pela primeira vez. E a zanga dos pais dela a ensaruou. O homem tirou a criança dos braços da companheira e a entregou à velha que estava cochichando.

Levantou-a da beira do rio e a levou para casa.

Ela chorava baixinho e pedia que lhe devolvessem o filho. E assim continuou, deitada na rede que tecera.

Num canto da maloca as velhas estavam passando urucu e carajuru no cadáver da criança.

No dia seguinte as mesmas velhas embrulharam aquele cadáver numa esteira.

E o enterraram no campo, pouco distante da maloca, sob um tapirizinho que elas mesmas levantaram.

No outro dia veio do lado inglês um velho pajé.

Dançou e cantou, até à noite, em redor da rede da índia. Soprou fumaça de cigarro sobre o corpo dela. Bateu folha nas suas pernas, nos seus braços e quadris.

E voltou para o lado inglês, dizendo que a mulher, noutro dia, se levantaria sozinha.

A mulher, porém, nunca mais pôde andar.

Então, (como nos primeiros dias em que ambos tinham começado a viver juntos) o homem passou a levar a paralítica por toda a parte.

Se ia caçar, levava a mulher também.

Se ia pescar, levava a mulher também.

Se ia para a roça, levava a mulher também.

Um dia saíram pelo campo comendo mangaba e murici. O homem a levava às costas.

O Sol foi embora. Veio a Lua. Veio o Sol. Depois veio a Lua.

E assim aconteceu durante muitos dias.

Muita gente já andava à procura deles. Andava daqui, andava dali, no rastro do peréquêté do homem.

E só depois de muitos, muitos dias, encontraram o arco, as flechas e o peréquêté do homem, a tanga, o pananpanan, os brincos e as pulseiras da índia.

Mas, ao redor dessas coisas, encontraram, também, moitas de um tajá, de um verde brilhante, que não conheciam.

Do corpo da índia e do companheiro teria nascido aquela planta, cujas folhas, na página inferior, mostravam uma outra folha semelhante a um sexo de mulher.

Nunes Pereira, em Moronguetá: um decameron indígena. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

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