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 Pirâmides do Amazonas: fantasias de um alemão

João Américo Peret (1926-2011), que costumava se identificava como repórter e sertanistas, testemunhou – e relatou – uma das dezenas de rumorosas buscas por tesouros na floresta e nos rios amazônicos. Ele acompanhou Roldão Pires Brandão na sua viagem na região do rio Padauiri, no alto rio Negro, onde, segundo o “índio” Tatunca Nara, moravam seus ancestrais, os indígenas Mongulala, no interior de gigantescas pirâmides. Mais tarde, Tatunca, na verdade um cidadão alemão, foi desmascarado como farsante, e Roldão, como caçador de fama. A reportagem de Peret sobre a Expedição Pirâmides do Amazonas está no livro de sua autoria Amazonas: história, gente e costumes. Confira:

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Estávamos no Rio de Janeiro e recebemos um telefonema de Manaus; era o Roldão Pires Brandão que anunciava:

– Eu vi as pirâmides e as ruínas de uma cidade, no Amazonas. Elas existem mesmo!

– Roldão, você está inventando, imaginando coisas… por enquanto, você não mostrou coisa alguma do que vem afirmando….

– Se estou dizendo que vi, é porque vi; você tem que acreditar em mim! Precisamos de sua experiência de sertanista, para chegar lá. Venha logo, antes que os estrangeiros carreguem tudo pela fronteira… A prova do que estou dizendo é a cerâmica que a Polícia Federal apreendeu com o suíço Ferdinand Schmid, e que estamos remetendo para você examinar.

– Quem estava com você na expedição?

– Levei dois homens da Polícia Federal, armados de metralhadoras para minha proteção e prender Ferdinand Schmid e o Erich von Däniken, que há anos pesquisam clandestinamente na região. Participaram também um geólogo da CPRM (Cia. de Pesquisa de Recursos Minerais), que constatou serem pirâmides o que vimos; o monge Ryôku Yuhan – José Alair da Costa Pires, suposto etnólogo, e o guia Tatunca Nara, suposto índio Mongulala, além dos trabalhadores braçais, informou-nos o Roldão.

Finalmente chegamos a um acordo: deixaríamos o assunto esfriar. enquanto eu prepararia um projeto. Depois, sairíamos em expedição sigilosa.

O trabalho, denominado Projeto Padauiri terminou sendo arquivado por falta de recursos nacionais. Só as entidades estrangeiras que riam participar das novas pesquisas.

Resolvemos, então, viajar pelo sistema tradicional do Roldão. Ele apela para o espírito patriótico dos amigos; estes, de boa-fé, vão aos seus correligionários e conseguem farto material. Embora não seja o caminho mais aconselhável, o Roldão vai vivendo suas aventuras…

Uma viagem cheia de imprevistos

Consegui uma passagem na Transbrasil e cheguei a Manaus em 17/9/1979.

No dia seguinte, assistimos à transformação de uma sucata em motor popa, o qual nos levaria através das perigosas corredeiras do rio Padauiri… À noite, o equipamento foi transportado para o barco do plaçabeiro (empresário de piaçaba) José Luiz, que nos ofereceu carona até o seu barracão na cachoeira da Aliança, no rio Padauiri.

Quando amanheceu o dia 19, navegávamos pelo rio Negro. Além de nós dois (eu e o Roldão) e a tripulação, viajava também um casal caboclo de idade avançada. Mesmo assim, o Roldão recomendou-me:

– Fique de olho na mercadoria, porque os caboclos são danados pra roubar

À hora do café, juntamo-nos ao casal, e o Roldão fez questão de se apresentar:

– Sou o professor Roldão Pires Brandão, descobridor do Pico da Neblina (?);– do Homem de Pedra – o esqueleto mineralizado de se tenta mil anos (?); – das Inscrições Fenícias do Rio Urubu (7: – das Pirâmides do Amazonas (?); tenho feito grandes descobertas para Brasil etc.

O casal entreolhava-se e sorria compreensivamente ouvindo as basófias do Roldão. Mais tarde, ficamos sabendo que a anciã chamava se Livina Cordeiro, e era neta de Jesuíno Cordeiro, mais conhecido com Pacificador do Rio Negro, que à época colonial comandou o Forte de São Gabriel da Cachoeira. E para completar, D. Livina era a mãe do gerente piloto do barco.

Em Barcelos, uma recepção insólita

Enquanto subíamos as escadarias do porto de Barcelos, Roldão solicitou-me que o chamasse de “professor” para impressionar os caboclos. Chegamos à casa do prefeito Ludovico Reis. Ele estava sentado na área externa e quando avistou o Roldão, exclamou:

– Ué, você já foi solto?… a “rádio cipó” (os boatos) anunciava a sua prisão, em Manaus; então, não era verdade?  – perguntou, sem levantar-se nem estender a mão para saudá-lo.

–  Tivemos dificuldades para conseguir o equipamento e ainda nos falta o combustível. O senhor nos arranja?… –  perguntou o Roldão. Em seguida, fez minha apresentação, descrevendo todo o meu curriculum, como se fossemos o seu avalista. O prefeito, que certamente já o conhecia muito bem, permaneceu frio. Corrigimos o Roldão, deixando clara nossa posição de sertanista-repórter.

O povo de Barcelos, na maioria, acredita na existência das pirâmides. Um caboclo contou algo sobre a existência de uma escadaria de pedra que sumia num subterrâneo, no meio da floresta. O comerciante Marcionilo Ribeiro, que conhece o rio Padauiri, comentou apenas:

– Esse Tatunca Nara e o “professor” Roldão são muito espertos…

Barcelos é uma cidade histórica, embora não tenha monumentos antigos. Ela surgiu das atividades missionárias dos Carmelitas, que catequizaram os índios do Negro. Ali, ficava a aldeia indígena dos Manaus (Manáo), que transformou-se em Povoado em 1753; passou a Vila em 1755, e tornou-se Província da Capitania do Rio Negro em 1757.

O deputado Carlos Paiva, nos revelou:

– Barcelos, em certa ocasião transformou-se num pandemônio, com o povo revirando o solo, na “caça ao tesouro” (as relíquias) de Lobo d’Almada (ex-governador da Capitania), que estaria em seu túmulo”.

– A delegacia permanece fechada, porque não ocorrem distúrbios na cidade, onde todos se conhecem, se respeitam e os jovens na maioria ainda tomam a bênção aos mais velhos, nas ruas – foi o que comentou o delegado.

O colégio das Missões recebe alunos para internato e o pagamento anual, pode ser cinco paneiros de farinha, mais a participação do aluno nos trabalhos domésticos do colégio.

Prosseguindo viagem, passamos pelo Paraná da Floresta, onde um dos muitos seringais desativados demonstram a decadência e o abandono da região. Chegamos à ilha da Saudade, que fica na foz do rio Padauiri. Ali conhecemos o “Padim Cícero” (José de Oliveira), um cearense de Quixadá. Ele foi “soldado da borracha”, mas não esquece o Padre Cicero e de tanto falar na saudade de sua terra, deu o nome à ilha. É um local onde todos os barqueiros encostam, não só pela hospitalidade do velho, como para saber as novidades. E que o seu Zé funciona como “antena parabólica: escuta o rádio o dia todo e passa as notícias aos visitantes. Nessa ilha, as mulheres trabalham na extração do látex (seringa).

O rio das águas coloridas 

Padauiri, no idioma dos indígenas Yanomani, significa “rio das águas coloridas”. Como as informações sobre esse rio eram poucas, resolvi fazer o registro de sua toponímia. O primeiro pernoite foi no sítio Cúa-Cúa, local onde se refugiaram os “cabanos” (guerilheiros da Cabanagem) e esconderam muita prata. A professora do lugar nos mostrou uma garrafa de louça que intrigava a todos. O professor Roldão examinando-a concluiu que era grega, fenícia etc. Quando a olhei, verifiquei que se tratava de uma garrafa de bebida holandesa, com sinete escrito em francês.

Mais adiante, no sítio Canta Galo, Wanderley Lacerda, o proprietário, estava curando no filho a leishmaniose (chamada vulgarmente de uraura) colocando sobre o ferimento uma gota de látex. E explicou:

– O bicho, além de morrer, fica preso na borracha; quando a gente retira, ele vem junto. É coisa de minuto.

A viagem estava se tornando desagradável, com o “professor” Roldão revelando sua grosseria e mediocridade. Nem mesmo os caboclos queriam ouvir suas anedotas obscenas.

Dois dias de viagem no rio Padauiri e chegamos à cachoeira da Aliança, que é o ponto final dos grandes barcos. É ali que os extratores de piaçaba depositam a sua produção, e os empresários as retiram, no período das cheias (abril-novembro). Nos meses subsequentes, quase todos abandonam a região.

No porto estavam outras embarcações. O dono de uma delas, o Tim Lacerda, nos informou que o Tatunca Nara estaria viajando com turistas alemães. Logo depois, uma mulher jovem e loura aproximou-se: saudou o Roldão e perguntou-lhe se poderia vender alguns remédios. Antes de atendê-la, para minha surpresa, o Roldão nos segredou:

– Essa é a mulher do índio Tatunca Nara, cuidado com ela…”

Tatunca Nara, o índio louro

– Por aqui novamente, professor Roldão? Escutei no rádio que o senhor encontrou as “pirâmides”, é verdade?

Essa pergunta vinha de um alemão com forte sotaque e um sorriso irônico.

-É isso aí… sobrevoamos a região até encontrá-las, e agora, vamos até lá – respondeu o Roldão.

E como para demonstrar as suas possibilidades apresentou-se:

– Trouxe comigo o serranista e indigenista.

Disse todo o meu curriculum. A seguir, virando-se para mim, disse:

– Esse Tetence Nera, de quem lhe falei.

– Índio Mongulala – indagamos, olhando aquele alemão. Até realmente pensava que havia um índio que era o professor Roldão. Por isso o meu espanto. A partir daí verifiquei que a história era complicada.

– É. Sou índio mongulala com uma freira alemã – observou.

A seguir, dirigindo-se ao Roldão, perguntou:

–  O senhor pode devolver aquelas três latas de gasolina que gastei para socorrê-lo?

– Que gasolina? Não lhe devo nada – respondeu o Roldão.

– Então, aquele combustível que gastei para socorrê-lo quando levou um tiro e quase morreu, não vale nada? E os curativos que minha mulher lhe fez também não contam? – perguntou-lhe o Tatunca, irritado.

Roldão engrossou a discussão.

Ardil do índio mongulala

Em uma pequena canoa, atravessei os rebojos da cachoeira e fui ao site do Índio Mongulala. Ao chegar, verifiquei que conversavam em alemão, e um dos visitantes estava com um mapa do Projeto Radam/DNPM, da região de fronteira (essa carta só é cedida mediante autorização do EMFA (Estado-Maior das Forças Armadas). Terminada a efusiva acolhida e apresentações, o sr. Curt Gluger, que é guia de turistas estrangeiros no Amazonas, nos indicou falando em português:

Estivemos aqui, na serra do Curupira. Essa região é um verdadeiro Alpes no Amazonas, vale a pena visitar. Meu companheiro ficou maravilhado, filmou e fotografou tudo.

– O senhor deve ir lá… Aconselhou-nos D. Anita (esposa do Índio Mongulala), tentando reter os louríssimos filhos do casal, para não perturbar-nos.

– Eu não o aconselho a subir o rio Padauiri – falou  Tatunca Nara. E explicou: – Os índios estão brabos e vão atacar isso aqui a qualquer momento. É por isso que vou de mudança para Barcelos.

– Por que os índios iriam atacar os civilizados?… Perguntei.

– É que alguns trabalham aqui, com os piaçabeiros e ganham armas. Depois, vão atacar os índios da Venezuela, e morrem por lá… Agora, os parentes virão atacar os civilizados por vingança… se o senhor aceite um conselho, volte daqui…

Eu já havia conversado com os cinco índios yanomani que trabalhavam com os civilizados. Eles se tratavam mutuamente de Churimã (cunhado, parente), e um deles se ofereceu de boa vontade para acompanhar-nos. Portanto, a “ameaça” não existia. Assim, aquele boato era para assustar o povo e fazê-los abandonar o local.

  1. Anita comentou que atuara no Projeto Rondon (estudava medicina) e que abandonara os estudos para casar-se e viver no ambiente selvagem. Mas, agora com a filha na idade escolar, teria que ir morar na cidade; em Barcelos já tinha um emprego garantido. Esse argumento justificava a mudança. Mas, por que assustar o povo?…

Tatunca e Roldão disputam pirâmides

Indagamos do índio Tatunca Nara, como ele conheceu o “professor ” Roldão. E ele, com certo rancor, respondeu:

–  Ele veio falando que era arqueólogo, cientista e não sei mais o quê.

E foi logo dizendo:

– Já sei onde estão as pirâmides e cidades soterradas, agora, se você também sabe, diga onde é? Ele queria me provocar, como se eu fosse um ingênuo, para “dar o serviço”… Depois, como isso não deu certo, ele ameaçou-me com a Polícia Federal, e forçaram-me a levá-lo na expedição financiada pelo Ferdinand Schmid e Erich von Däniken, em 1978. Foi nessa viagem que discutimos e ele, que é burro e neurótico, jogou a carabina no chão e ela disparou, quase causando sua morte. Em julho deste ano (1979), ele chegou com muito rompante, trazendo a Polícia Federal, com metralhadoras e muitas ameaças. Então, fui obrigado a levá-los até a região. Mas, fiquei dando voltas com eles até desistirem. Mesmo assim, o Roldão anunciou as suas “descobertas das pirâmides – concluiu o Tatunca Nara, com ironia.

– Então o Roldão não viu as pirâmides?… Perguntamos.

–  Ele não pode ter visto as pirâmides, porque eu não iria “entregar o ouro aos bandidos”… Mas, a cerâmica que dei ao tio (?) Ferdinand Schmid (nota do autor: a mesma que foi apreendida pela Polícia Federal) tem seis mil anos (?) e veio de lá. Respondeu.

Confidências sobre as pirâmides

Ao retornarmos de seu sítio, Tatunca insistiu em levar-me na sua lancha voadeira. Mas ao chegarmos a um remanso da cachoeira, parou e depois de alguns rodeios, narrou sua estória:

“…O senhor já notou essa tartaruga tatuada em meu peito?…Ela é símbolo do chefe-sacerdote de um povo Inca (?) muito antigo, sou Ugha Mangulala. A minha mãe era freira e médica religiosa de Santa Maria, no Acre (?). Meu pai chamava-se Sincáia e era sacerdote chefe Uga Mangulala, em uma cidade em ruínas, como Machu Pichu, só que era no alto rio Acre (7).

Em 1930, meu pai atacou a missão de Santa Maria e matou um bispo (?), os padres e toda a população. Restaram quatro freiras (?). Duas sumiram pelo mato, uma morreu em acidente, e a outra foi prisioneira para a nossa cidade.

Em 1935, ela casou-se com meu pai e passou a chamar-se Heina. Eu nasci em 1938; minha irmã Aharira, em 1944. Minha mãe morreu em 1956. Minha irmã casou-se em 1957 com um mensageiro Mongulala, que foi dessa cidade subterrânea do rio Padauiri (serra do Curupira), até o Acre.

Quando ele voltou para cá, viemos com ele, para conhecer os parentes daqui, (Nota do autor: do Acre ao rio Padauiri, são milhares de quilômetros, através das florestas, rios imensos e pântanos).

Foi nessa ocasião que conheci as pirâmides e cidades subterrâneas, sendo a principal denominada de Kakor. Nessa, vivem os sacerdotes Mongulalas, minha irmã e milhares de pessoas privilegiadas. Eles guardam relíquias e tecnologias avançadíssimas.

A cidade de Akakor é iluminada por uma espécie de aura-luz dos próprios corpos. Nosso povo faz uso da telepatia, e tem uma força mental capaz de materializar qualquer coisa, em qualquer lugar.

Além disso, em uma sala do subterrâneo, tem uma tela de televisão imensa, onde aparecem imagens de outros planetas e meios de transportes sofisticados (discos voadores etc.). Outros aparelhos com botões iguais e robôs têm muitas atividades; aos computadores dos “civilizados’

usam até o raio laser. As pessoas vestem-se com mantas do tipo que usavam os gregos, e usam joias deslumbrantes…”

A essa altura da narração o “indio Ugha Mongulala” fez essa observação:

“Eu fiquei com muita vontade de ficar morando com minha irmã; mas, como substituto de meu pai, tinha que voltar com ele, para o Acre…”

A seguir, ele continuou a narração:

“…também encontramos a cidade de Akahim está meio soterrada e localiza-se mais próxima do rio Padauari. Ali vivem os escravos de Akakor. Esses homens que são chamados Homens da Caverna, fazem também o policiamento da região. Quem chegar sem a nossa autorização morre… Assim, índio louro, Magulala, concluiu a sua história

Peixes diluvianos atraem Roldão

Um homem meio embriagado se aproximou e contou ao professor que no rio Araca, distante dali centenas de quilômetros, havia uma estrada cimentada que ninguém sabia onde ia dar. E mais: num lago isolado no alto de uma serra de mais de mil metros de altura, existiam peixes, numa variedade muito grande, entre eles, os grandes pirarucus, peixes-bois, botos, tucunarés etc. Foi o quanto bastou para o professor Roldão desistisse de ir olhar as pirâmides e logo propôs:

– Acho que vale a pena investigar… quem sabe os peixes permaneceram ali desde o Diluvio Universal?… ou então pode ter sido o cataclismo que elevou os Andes, e suspendeu também esse lago!… Comentou cheio de interesse.

O Roldão não ficou muito satisfeito quando lhe dissemos em tom de brincadeira que os vapores do álcool estariam transformando os peixes em alpinistas…

Expedição Pirâmides do Amazonas: a aventura de Roldão Pires Brandão. Foto: J. Américo Peret/Reprodução

Um cacique para o Roldão

A Expedição Roldão estava parada há uma semana, na cachoeira da Aliança. Realmente era ali que ela exigia coordenação e execução. Mas o Roldão demonstrava apatia e insegurança. Por isso, fizemos um motim e o arrastamos para a frente.

À montante da cachoeira, ainda seguimos a reboque de um barco de porte médio, pertencente ao empresário de piaçaba Marcionilo Ribeiro que se relacionara bem conosco, e se propôs a acompanhar-nos na aventura.

Por insistência do “professor” abandonamos temporariamente a subida pelo rio Padauiri, e entramos em seu afluente direito, o rio Marari. em uma única voadeira, para encontrar as aldeias dos índios yanomani, pois o Roldão queria contratar o cacique para servir de guia até às pirâmides, ou para chegar aos “homens das cavernas”. Não houve argumento que o demovesse da ideia.

O rio Marari que estava na vazante, era totalmente obstruído por árvores roladas pela erosão fluvial e o leito rochoso do rio formava cachoeiras. Para superar esses obstáculos, o Manuelzinho, que era o único trabalhador contratado pelo Roldão, tinha que cortar as árvores, enquanto que eu, o Marcionilo e o índio, tínhamos que participar ativamente do translado, carregando a bagagem e arrastando a voadeira sobre as cachoeiras.

O “professor” por outro lado, lembrava bem um lorde inglês em safari na África… não fazia coisa alguma.

Acampados na selva, no meio da noite, vimos o “professor” Roldão acordar o empregado e mandar que fosse apanhar uma lata vazia, para ele fazer o seu “xixi” sem sair da rede… Esse fato se repetiu durante toda a expedição.

Após três dias de extenuante viagem, chegamos ao ponto onde deixaríamos a pequena embarcação e penetraríamos na selva, para finalmente chegar às aldeias dos índios yanomani. Somente eu, o Marcionilo e o índio Ary, abrimos picada de 12km e alcançamos a aldeia, onde havia um Posto de Assistência Missionária, pertencente às Novas Tribos do Brasil, com um campo de pouso operado pela Companhia Asas de Socorro, ambas americanas.

Os índios estavam em grande parte a mais de um dia de viagem, preparando uma nova lavoura. Era lá que estava o cacique, para quem mandamos a mensagem do Roldão. Passamos o dia com os missionários e alguns indios, fazendo anotações. Voltamos a seguir para o nosso acampamento, onde aguardamos o cacique. Ele chegou no dia seguinte e através de seu intérprete, disse que não sabia o que eram pirâmides nem cavernas. Então sugerimos ao Roldão que perguntasse sobre “homens que moravam em buracos nas pedras”… O índio soltou gargalhadas, porque “quem mora em buracos nas pedras, são as feras”… comentou. Depois, falou que não poderia abandonar o trabalho da roça, para passear… E ainda exigiu um pagamento pela viagem que deu até ali. Mas não foi atendido.

Indagamos dos índios se eles estavam zangados com os brancos que habitavam a cachoeira da Aliança, e eles disseram que não. Os missionários nos informaram que os índios viviam em paz, e que só os jovens iam até a cachoeira, por simples aventura, e que embora explorados pelos piaçabeiros, voltavam sempre satisfeitos com o que ganhavam.

Na volta, quando passamos na cachoeira do Sabão, perguntamos ao “professor” que sulcos eram aqueles existentes na rocha. Ele passou imediatamente a dizer que eram inscrições fenícias, iguais às que encontrou no rio Urubu. Então, eu expliquei que não era nada daquilo, e sim, amoladores e polidores de material lítico (machados de pedra) dos índios.

Cachoeira do Schmid

A viagem desnecessária, porém, interessante, às aldeias dos yanomani, do alto rio Manari, nos contrafortes da serra Tapirapecó, nos tomaram uma semana.

Voltamos ao rio Padauiri. Nos acampamentos, fazíamos pesquisas na tentativa de encontrar cacos de cerâmica indígena para compará-los à cerâmica apreendida com o suíço Ferdinand Schimid, em Manaus. Mas não obtivemos êxito, o que prova ser a referida cerâmica de outra área.

Chegamos à Cachoeira do Schimid (local onde naufragara “acidentalmente”, que seria o ponto final do avanço pelo rio. Fizemos um reconhecimento da área, que é de formação rochosa com embasamento gnáissico pré-cambriano. A camada de terra humosa estendia-se alagadiça e recoberta principalmente de palmáceas (buriti, joari, piaçaba etc.) na margem direita, a grande distância. Quanto à presença humana na região, não ultrapassara a beira do rio, em acampamentos temporários

O mirante das pirâmides

O Tatunca Nara fizera indicação da serra de Mirante, na margem esquerda do rio, para avistarmos as pirâmides. Pouco antes de iniciarmos a escalada, o “professor” Roldão preparou um despacho de macumba” dizendo que seria para abrir o nosso caminho… O índio Ary foi rastreando a picada de penetração do Tamanca Nara, que facilitaria a nossa tarefa.

A nossa caminhada foi lenta e cansativa, devido às escarpas serem íngremes e estarmos sendo castigados por uma chuvinha quase constante. Depois de renovado sacrifício, chegamos a uma escarpa de onde era possível avistarmos a floresta que se estendia à margem direita do rio. O “professor” Roldão resolveu permanecer ali, enquanto continuamos até o cume, que calculamos em 800m de altura.

Realmente aquele local era um excelente mirante de onde avistava-se toda a região Noroeste, onde a floresta baixa limitava-se ao longe com a serra Tapirapecó, e vinha estreitando-se em direção Nordeste até encontrar a cordilheira do Curupiram, onde nos encontrávamos. Ao Norte. nossa visão era obstruída pelas escarpas com mais de 1.200m de altura. Vez por outra, nuvens pesadas desciam sobre a vegetação, muito abaixo de nós, emprestando ao cenário um aspecto alpino.

Finalmente as “pirâmides”

No Noroeste, aos 325°, avistamos as três elevações que estavam assinaladas em nosso mapa, como sendo as pirâmides do Roldão. Na realidade, eram as pirâmides do Tatunca Nara – o “Indio louro, Ugha Mongulala”. Elas estavam aproximadamente a 12 km de distância, pela escala 1:250.000. A primeira, situada à esquerda, pela mesma escala, deve medir em torno de 600m de altura; a da direita, no mínimo 250m; e a do centro, localizada mais ao fundo, uns 400m de altura, com 2.500m de extensão.

Gostaríamos de lembrar, à guisa de informação, um pouco sobre as pirâmides situadas em Gizé, no Vale do Nilo, no Egito: A pirâmide de Miquerinos, a de Quéfren e a maior de todas, a pirâmide de Quéops, construídas por volta do ano 2600 a.C. Para a construção da grande pirâmide de Quéops (Faraó da IV Dinastia), foram utilizados cerca de 2.300.000 blocos de pedra, na maioria calcária), com peso médio de 2.500 Kg, alcançando a altura de 144m. Foram usados nada menos de 100.000 escravos durante os 23 anos em sua construção.

As “pirâmides” (elevações) do Roldão e do Tatunca Nara, com as dimensões de até 600 m de altura de 2.500 m de comprimento, numa região onde predominam as rochas graníticas, fariam as pirâmides do Egito parecerem insignificantes. O certo é que o esperto “indio louro” Tatunca Nara aconselhava que olhassem as suas “pirámides” quando o sol reclina se para o poente. É óbvio que todos os picos de serra, formam momentaneamente sombras triangulares: e assim, tínhamos não só as três “pirámides”, mas uma infinidade delas afloradas nas terras baixas do sopé das cordilheiras de Tapirapecó e Curupira, onde nascem os afluentes da margem esquerda do rio Negro, no Amazonas.

Segundo o Tatunca Nara, vivem em Akakor (a cidade sob as pirâmides, que às vezes está localizada no Estado do Acre) nada menos de 3.000 alemães e outro tanto de Sacerdotes Mongulalas. Ele diz também que em Akahim (cidade próxima semi-soterrada) vivem os “homens das cavernas”, mantêm as lavouras dos Mongulalas (o que indicou no mapa é um imenso Joarizal com alguns buritis – palmáceas).

De tudo isto, constatamos que se trata de um ardiloso plano do Tatunca Nara, como meio de vida. E que o visionário “professor” Roldão Pires Brandão, tentou surrupiar para si, as honras das “sensacionais descobertas”, que não ficaram só nisso. Durante a viagem com o índio Ary, aproveitamos a oportunidade para fazer um levantamento linguístico do dialeto dos yanomani, e obtivemos a tradução das palavras que o “indio louro Ugha Mongulala” – Tatunca Nara, fazia uso como sendo de sua origem: – Padauiri (rio de águas coloridas) versão atribuída por ele ao seu “dialeto”: – Mongulala (o sexo maníaco): Akakor (disenterial: – Akahim igarapé). Até mesmo o nome “Tatunca Nara” que ele adotou possivelmente em 1971, quando apresentou-se à Funai, em Rondônia, merece investigação.

Roldão fala com o “além”

Ao chegarmos ao acampamento, o Roldão foi logo perguntando:

– O que vocês viram lá de cima?

– Vimos as serras, as matas, o buritizal e as nuvens. Só não vimos as “pirâmides” do senhor e do Tatunca Nara… – respondeu Marcionilo, que mesmo cansado, não perdia o bom humor.

– Eht… não há nada por aqui. Já falei com “os lá do alto” e eles me disseram que as “pirâmides” estão em outra região… falaram também que vocês não estão “preparados” para vê-las… – comentou o Roldão, que rendo mistificar sobre o assunto.

Nos dias que se seguiram, fizemos incursões às margens do rio e na floresta tentando encontrar vestígios de penetração humana na região. Não havia nenhum; e mesmo a fauna era escassa, justificando a ausência inclusive de índios.

Certa noite o Roldão entrou em depressão e comentou ao lamentar-se : – Que droga de de expedição… eu devia ter trazido gente que me levasse até à serra, mesmo que fosse para eu dar “umas marretadas e quebrar tudo por lá.

Ele não aceitava que 5cm na escala de 1.250.000, correspondiam a 12,5km, nem entendia que essa distância percorrida pelo solo, se multiplicaria devido aos acidentes geográficos. E finalmente que o nosso sacrifício seria inútil.

No dia seguinte o Roldão já recuperado da “fossa”, falou:

– Eh!… não vale a pena o sacrifício, falei com “os do alto” e eles disseram que seria perda de tempo ir até à serra, porque não existia nada lá…”

Porém, quando, por brincadeira, eu e o Marcionilo “combinamos que iríamos procurar piaçaba na região, o Roldão mostrou-se desconfiado…

As peripécias do Tatunca Nara

Regressamos à cachoeira da Aliança e permanecemos no sítio do Assis. Ali tivemos a oportunidade de gravar informações sobre o índio louro, Ugha Mongulala Tatunca Nara.

–  O Tatunca ameaçou-me de morte; fui a Barcelos e dei queixa ao delegado. Este mandou uma intimação para que ele deixasse isso aqui. Na verdade, ele não foi de livre vontade, nem porque temesse um ataque dos índios, foi mais uma de suas mentiras para assustar o povo… – explicou o Assis.

– Ele é mesmo perigoso?… – indagamos.

– Ele chegou por aqui em 1974, e eu o ajudei. Instalou-se na outra margem do rio, por cima da cachoeira. Para abrir o roçado do sítio, ele pediu-me que arranjasse os índios; eu o fiz e tive de pagá-los. Certa vez o Tatunca roubou-me quatro toneladas de piaçaba e as vendeu. Por causa disto, tivemos um atrito. Ele gosta de matar os cachorros dos vizinhos e ameaça os donos. O Tatunca sempre viveu explorando os outros, e dando uma de valente. Ele já foi preso pelo Exército bem aqui na cachoeira… – comentou o Assis.

Verdade, como foi isso? – perguntamos.

– Um dia chegou por aqui uma patrulha do Exército, com um sertanista da Funai; vieram prender o Tatunca. Eles subiram o rio em barcos de borracha e essa perseguição levou dias. Quando o Tatunca percebeu os militares, escondeu-se no mato; a patrulha passou e ele desceu o rio. Mas o capitão desconfiou e voltou, apanhando-o aqui na cachoeira. Ele foi preso e levado para interrogatório no porão do grande barco, onde já se encontrava D. Anita, sua esposa; ela estava grávida e muito nervosa, chorava bastante. Finalmente, rasgaram uns documentos apreendidos e liberaram os presos. Durante os interrogatórios a patrulha fez buscas nos presos. Porém, proibiram-no de subir a cachoeira, que é considerada Área de Segurança Nacional, e de envolverem-se com os índios. Essa

proibição o Tatunca Nara não cumpriu… e com essa estória de “pirâmides”, “cidades subterrâneas”, etc., ele engana os bobos do mesmo modo que o “professor”: traz estrangeiros para a área proibida e vai ganhando vida… Completou o nosso anfitrião.

Apesar de tentarmos não conseguimos nos desvencilhar da expedição do Roldão ali, na cachoeira, por falta de transporte. Viajamos até a Ilha da Saudade, onde o Sr. José Oliveira contou-nos o que sabia sobre o Tatunca:

– Dizem que ele é procurado pela polícia do Peru, onde sua cabeça estaria a prêmio, por um milhão de cruzeiros… falam que ele matou muita gente por lá… não sei se essa estória foi contada por ele mesmo para nos impressionar. Soube também que ele esteve preso no Acre e em Manaus… o caso dele é meio confuso… – comentou o velho.

A história contradiz

Recapitulando o que nos foi dito pelo Tatunca Nara, temos o seguin-

“…Em 1930 meu pai massacrou todos da missão religiosa de Santa Maria, no Acre,  matou um bispo, os padres e o povo, raptando uma freira que se tornou minha mãe…”

Na história do Acre, não encontramos registro sobre a tal missão; naquela época não havia diocese, nem bispo; os padres e freiras eram poucos e estavam localizados nas cidades principais. Não há qualquer evidência sobre as afirmações do Tatunca.

“Meu pai era sacerdote-chefe Ugha Mongulala vive em lugares secretos do mundo… ele habitava as ruínas de uma cidade como “Machu Pichu”, no Acre…”

Não encontramos bibliografia que faça alusão sobre um povo mongulala. Também não existem provas de construções pré-colombianas no Brasil. Por outro lado, no Acre, a sedimentação do solo é basicamente aluvional, sendo improváveis as formações rochosas, indispensáveis a tais construções.

“…Em 1959 caiu um avião da FAB, no Acre. Os seis tripulantes foram aprisionados por uma tribo inimiga. Eu os salvei e fui com eles até Manaus… a seguir, o comandante de um navio alemão levou-me clandestinamente até a Alemanha…”

“O Ministério da Aeronáutica possui uma documentação completa sobre os acidentes de aeronaves no Brasil. E não encontramos ali, as referências expostas pelo Tatunca Nara.

Relatei as histórias sobre o meu povo, as pirâmides e cidades subterrâneas do Amazonas, para o jornalista Karl Brugger; ele fez um livro sem a minha autorização: The Chronicle of Akakor, 1979. Esse cara não vale nada, é um vagabundo…” – afirmou Tatunca.

Conhecemos o Sr. Karl Brugger e as “pirâmides” de que trata seu livro: The Chronicle of Akakor, cuja tradução no dialeto indígena Yanomani seria: A Crônica da Disenteria..

Quanto aos “achados arqueólogos” do professor Roldão Pires Brandão, temos os seus depoimentos:

“…A 4 de fevereiro de 1965, desistimos da 3.ª expedição – tentativa para chegar ao Pico da Neblina, a pedido dos Srs. Dilermano e Pacheco, da Comissão Mista Demarcadora de Limites, Brasil-Venezuela. Eles deveriam chegar na frente, para o reconhecimento, evitando assim, possíveis incidentes diplomáticos..”’

Toda vez que o Roldão atribui a si, essa descoberta, o pessoal da Comissão o desmente, publicamente.

“…Em outubro de 1971 realizamos uma expedição em busca das pirâmides-esfinge, e do fóssil mineralizado O homem de Pedra na região da Lagoa Mandioré, sul de Mato Grosso; descobrimos o fóssil de 70.000 anos…”

Nessa expedição do “professor” Roldão, ele encontrou o referido fóssil no Museu da Cidade, em Ponta Grossa, e o retirou.

“…Descobri as inscrições fenícias gravadas em pedras no rio Urubu, Município de Itacoatiara, no Amazonas, em 1976…”

No livro intitulado: “Inscrições e Tradições da América Pré-históricas, publicação da Imprensa Nacional, volume 1 – Especialmente, do Brasil,  de Silva Ramos, publicação da Imprensa Nacional, 1930 – encontram-se as inscrições que o professor Roldão diz ter descoberto.

Com referência às “pirâmides e cidades subterrâneas” do Tatunca Nara, Karl Brugger, Ferdinand Schimid, von Däniken e do “professor”, elas “existem” como um meio de vida para eles, que vivem à “Sombra das Pirâmides do Amazonas”…

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