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Abraço de apuizeiro

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Recorro à memória da infância, aí encontro lembranças de fatos longínquos que me auxiliam na compreensão do presente. Lembro-me por exemplo da maneira como tio “Didiu” advertia-me sempre que, junto com colegas, cometia alguma travessura. Dizia: “Você não é uma árvore. Uma árvore não pode escolher suas companhias, mas você pode, escolha bem as suas”. Embora eu compreendesse o que ele estava querendo dizer, não entendia o que a árvore tinha a ver com a estória.

Recentemente, em visita ao Palácio Rio Negro, aí deparei-me com uma curiosa árvore que existe atrás daquele prédio. A cena é composta por uma árvore envolta de cima abaixo com raízes parecidas e com tentáculos gigantescos. Ela vive seus dias finais, muito em breve não haverá ali sinal de sua existência.

Sua presença será apagada. No seu lugar restará outra planta, um apuizeiro, que um dia involuntariamente ela abrigou ainda semente. Deu-lhe guarida para nascer e crescer, e, em pagamento, ganhou a ingratidão. Sua hóspede lhe sugou tudo: a forma, a força e a vida.

O apuizeiro é uma planta da floresta amazônica. O fruto do apuí é doce e atrativo ao paladar de alguns pássaros. Eles o ingerem junto com as sementes que continuam intactas em seu organismo. Em suas idas e vindas deixam fezes sobre as copas de grandes árvores. Então, a semente do apuí germina. Nasce uma frágil e inofensiva plantinha, que começa crescer e descer em direção ao solo. Em seu crescimento, vai abraçando dissimuladamente, com seus ramos vorazes, a árvore que teve a infelicidade de hospedá-la. Tem início um jogo terrível. A árvore hospedeira começa definhar na proporção inversa ao fortalecimento de sua hóspede, pois é de sua seiva que o apuizeiro se alimenta.

O escritor Euclides da Cunha, no livro “Amazônia um paraíso”, faz o seguinte relato: “O apuizeiro é um polvo vegetal. Enrola-se ao indivíduo sacrificado, estendendo por sobre ele um milhar de tentáculos. O polvo de Gilliat dispunha de oito braços e quatrocentas ventosas; os do apuizeiro não se enumeram. Cada célula microscópica na estrutura de seu tecido se amolda numa boca sedenta. E é uma luta sem um murmúrio. Começa pela adaptação ao galho atacado de um fio lenhoso, vindo não se sabe donde. Depois, esse filete intumesce, e, avolumado, se põe, por sua vez, a proliferar em outros. Por fim, a trama engrossa e avança constringente, para malhetar a presa, a que se substitui completamente. Como um sudário, o apuizeiro envolve um cadáver; o cadáver apodrece, o sudário reverdece imortal”.

A natureza é repleta de lições que podem ser transpostas para a vida. A maneira como é engendrado o ciclo de vida do apuizeiro tem muito a nos dizer sobre os percalços da convivência humana. O conhecimento, a informação e o saber são lumes importantes que podem auxiliar o ser humano em sua trajetória neste mundo. Refletindo sobre os parasitas vegetais, simbolizados no apuizeiro do Palácio Rio Negro, pude perceber, com algumas décadas de atraso, a sabedoria contida nas palavras do meu saudoso tio.

As árvores não podem resistir aos desígnios da sorte. Mas nós podemos, uma vez que é recomendável que tenhamos discernimento para percebermos o abraço traiçoeiro dos apuizeiros humanos que encontramos na caminhada.

Escrevi e publiquei esta crônica há dez anos em minha coluna semanal no jornal o Estado do Amazonas. Acontecimentos recentes fizeram-me relembrar desta reflexão.

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